segunda-feira, 31 de outubro de 2016
domingo, 23 de outubro de 2016
8.º ENCONTRO NACIONAL
DO VOLUNTARIADO EM SAÚDE
CONCLUSÕES
Subordinado
ao tema “Da Proximidade à Globalidade”, realizou-se a 22 de outubro de 2016, em Tomar, o 8.º
Encontro Nacional do Voluntariado em Saúde, com a participação de cerca de 250
voluntários, convidados, personalidades do Poder Local, da Administração
Pública, da Saúde, da Ação Social e de Organizações da Sociedade Civil; e
amigos do Voluntariado que em Portugal se desenvolve em Unidades e em
Equipamentos onde se prestam serviços e cuidados de saúde, sobretudo no Serviço
Nacional de Saúde.
O evento foi
promovido pela Federação Nacional de Voluntariado em Saúde, e organizado em
parceria com a Liga dos Amigos do Hospital de Tomar, com a Câmara Municipal da
mesma cidade e com o apoio para a comunicação, da Rádio Canção Nova; e do
Jornal e Rádio Cidade de Tomar, relevando-se ainda o contributo de voluntários,
presidente e diretores da referida Liga; e de colaboradores municipais e outros.
A todos se agradece.
Para além da
promoção de encontro anual de quantos dedicadamente servem todos os dias os
utentes das Unidades e Equipamentos de Saúde, a iniciativa teve também o mérito
de congregar preletores de excelência, que proporcionaram abordagens e
reflexões de alta qualidade acerca dos subtemas, “Quem é o meu próximo? Proximidade, justiça e responsabilidade”, “O
voluntariado de proximidade, em contexto hospitalar e na comunidade” e “Reconhecimento
das aprendizagens decorrentes do voluntariado”, contribuindo assim com os
seus saberes e prestígio, para voluntariado e voluntários mais esclarecidos,
mais formados, mais capacitados e mais aptos para desempenharem melhor o seu
papel e para satisfação das pessoas e das Organizações.
Os
participantes no 8.º Encontro Nacional do Voluntariado em Saúde, declaram:
Que comungam
dos objetivos, dos conceitos e dos princípios que em Portugal dão hoje corpo e forma;
e enquadram o voluntariado organizado. Acreditam que a prática do voluntariado
é um modo possível para a vivência ativa da cidadania; e que no campo da saúde,
aquela tem papel insubstituível para a humanização, em regime de
complementaridade. Afirmam que o voluntariado é um contributo inestimável na
promoção do desenvolvimento pessoal, social e comunitário, com posturas de
cooperação interpessoal e entre Organizações, e fomento à participação direta,
ao pensamento crítico e ao interesse ativo dos cidadãos na sensibilização para
os benefícios decorrentes do voluntariado, para todos os cidadãos, com a
promoção de sentimento comum de responsabilidade, de solidariedade.
E
estabelecem as seguintes conclusões:
1.
O
voluntariado no campo da saúde, é verdadeiramente de proximidade; e caracteriza-se
por uma interpessoalidade tão próxima e comungante que promove e sugere
relações plenas de simpatia e de empatia. A autêntica proximidade, aquela que é parte da cura
e que liberta, também está no exercício do voluntariado no campo da saúde, esse
que responsabiliza a todos e que é dever de justiça e de cidadania, mas também
de compaixão e de misericórdia, estas que relevam a importância da
disponibilidade e da dádiva amorosa e sem contrapartidas. É na
proximidade que o voluntário sabe e vive em si mesmo quem é o seu próximo. São
estes encontros plenos de gestos simples que fazem sentido e têm sentido. É
esse sentido que sendo gesto de aproximação no imediato e no presente, não se
esgota em si mesmo, mas antes tece um sentido que o supera.
As mais valias e os
ganhos para todos os stakeholders, decorrentes da prática da proximidade e do
encontro no âmbito do voluntariado em saúde, são por demais evidentes e
ineludíveis; e apelam à integração dos voluntários nas equipas de trabalho, com
a necessária adaptação às diferentes realidades institucionais, comunitárias e
de prestação de cuidados.
As Organizações
Promotoras de Voluntariado no campo da saúde e seus voluntários, carecem e
requerem que para eles se dirija um outro olhar, um olhar diferente, um melhor
olhar. É necessário que o voluntariado no campo da saúde, seja visto como
parceiro verdadeiramente estratégico a nível superior. Ele é mesmo contributo
indispensável, para a realização dos objetivos das Entidades e da obtenção de
níveis superiores da qualidade dos serviços e cuidados que são prestados; e
isso deve ser reconhecido.
É necessário conjugar
competências académicas e pessoais, no sentido do aumento do desempenho e da
prestação de melhores e mais adequados serviços de voluntariado; e devem haver “novos modelos de serviços para cuidados
integrados e centrados nas pessoas: serviços domiciliários e de proximidade
mais disponíveis, com a participação das instituições de solidariedade e
voluntariado”.
2.
A
aprendizagem ao longo da vida é uma realidade e acontece em diversos contextos
sendo o voluntariado uma experiência em que acontecem aprendizagens com um
impacto relevante a nível pessoal, social e profissional. Aceita-se que se reconheçam e validem as
aprendizagens em voluntariado. Mas não se aceita que isso alguma vez possa
subverter os valores e os princípios que norteiam o voluntariado em geral e os
do campo da saúde em particular.
O reconhecimento e a
validação das aprendizagens decorrentes do voluntariado, se tem dimensão
global, também tem dimensão própria, particular e específica no campo do
voluntariado na saúde. Que a sua implementação e desenvolvimento, aconteça sim,
mas com o bom-senso e a certeza de que acrescenta valor e eleva o nível da
prática do voluntariado, no sentido do melhor serviço às pessoas, nomeadamente
aos mais excluídos dos excluídos.
Tomar, 22 de outubro de 2016
Os participantes no 8.º Encontro Nacional do Voluntariado em Saúde
Aprovado por unanimidade e aclamação
Nota: a versão longa pode ser acedida em:
Nota: a versão longa pode ser acedida em:
domingo, 9 de outubro de 2016
Eutanásia:
“Há circunstâncias atenuantes que justificam a
absolvição”
![]() |
| Pe. José Nuno, sacerdote católico |
Padre José Nuno, o capelão português que esteve mais tempo em funções num
hospital, admite que em alguns casos os médicos que ajudem a morrer doentes
terminais não devem ser condenados. E defende ensino sobre a morte nas escolas.
Depois de 18 anos à frente da capelania do
Hospital de S. João, no
Porto, o padre José Nuno Ferreira da Silva assumiu sexta-feira o cargo de
capelão no Santuário de Fátima, onde vai criar um centro de escuta e
acolhimento e formar terapeutas capazes de responder à constatação de que a
confissão deixou de ser resposta para os que sofrem. Diz que a “total
erradicação da morte do espaço público” se tornou patogénica e que o facto de
as pessoas recusarem encarar a morte deixará buracos biográficos irremediáveis
na vida de cada um. É preciso ressocializar a morte, levá-la às escolas,
juntamente com a educação sexual. E apostar nos cuidados paliativos. Quanto à
morte medicamente assistida, admite-a em casos excecionais, mas considera que
não deve ser despenalizada.
As estatísticas mais recentes mostram que
cerca de 60% das mortes ocorrem em contexto hospitalar. O que mudou na forma
como se morre nos hospitais ao longo destes 18 anos?
Os doentes que estão a morrer começaram a
ser considerados em vez de arrumados. Na prática, isso traduziu-se na criação
de espaços adequados onde as pessoas possam estar com as suas famílias. Quando
cheguei lá, a generalidade dos óbitos era em salas de pensos, onde os doentes
eram isolados e agonizavam. E proibia-se a entrada e a permanência dos
familiares. O gatilho do meu trabalho sobre o processo de morrer no hospital,
que me deu raiva suficiente para me debruçar sobre o assunto, foi ter visto uma
mulher a ser arrastada pelos corredores pela segurança do hospital a protestar
porque não a deixavam ficar com o marido que ia morrer naquela noite. A esposa
queria ficar, toleraram-na mais uma hora para além da hora de visita, mas
depois arrastaram-na dali para fora.
Hoje as pessoas já conseguem acompanhar o
doente que está a morrer?
Conseguem. Às vezes, não são capazes. É uma
questão de capacidade, porque a cultura vigente arruma a morte, não quer olhar
para ela. Aliás, uma das coisas curiosas, e um sintoma de hipocrisia social é
que, no fim da legislatura do governo Sócrates, foram publicadas várias leis
que, à semelhança do que se previa relativamente a crianças e a pessoas com
deficiência mental, estabeleciam o direito de os doentes em estado terminal
serem acompanhados a tempo inteiro pelos seus familiares. Era uma lei fraturante,
mas de que ninguém falou. E enquanto para as crianças e para os deficientes o
direito foi depois tutelado, em relação a quem fica a acompanhar quem está
a morrer nada está previsto. E o certo é que ninguém reclama por isso. Acho que
as pessoas, por incapacidade – e isto não é um julgamento, é um lamento –
preferem que não haja as condições todas para estar, porque têm medo de estar.
Isso é batota.
Alguns autores consideram que, a partir dos
anos 50, a morte substituiu o sexo como tema tabu. Por que é que a morte
caminhou para esta espécie de não visibilidade?
Porque a redução do conceito de felicidade
ao bem-estar exige arrumar, não olhar, esquecer, ou fazer de conta que se
esquece, tudo aquilo que possa perturbar o bem-estar. E é claro que o rosto de
alguém que está a morrer rasga a máscara, diz que a felicidade não é redutível
ao bem-estar. Só que nós vamos todos no carrossel do bem-estar e por isso temos
uma incapacidade estrutural de olhar para esta realidade.
Esta transferência da morte para os
hospitais é consequência dessa incapacidade de confronto com a ideia de
finitude ou é um sinal de progresso, na medida em que traduz um maior acesso à
Saúde?
Efetivamente, a curva ascendente da
transferência da morte para o hospital coincide com a criação do Serviço
Nacional de Saúde, na década de 70. Portanto, o morrer no hospital significa,
em primeiro lugar, que a sociedade assume uma especial solicitude para com os
que estão a morrer. Esta é a dimensão positiva. Mas o fenómeno é ambivalente,
porque, ao mesmo tempo, traduz esta outra incapacidade de olhar para a morte e
de acompanhar aqueles que estão a morrer. Mas isso não se aplica só às
famílias. Na Igreja, fizeram-se as capelas mortuárias. Numa comunidade
paroquial, uma pessoa faz toda a sua vida na igreja paroquial. É lá que se é batizada,
faz catequese, a comunhão solene e o crisma. É lá que casa e batiza os filhos.
Já o funeral é na capela mortuária. A transferência do morrer não é apenas uma
questão de morrer em casa ou no hospital. É a remoção do morrer para um espaço
à parte.
Na realidade hospitalar, o que falta ainda
fazer?
Falta criar uma unidade de cuidados
paliativos. O hospital tem um serviço de cuidados paliativos, que é dos maiores
e melhores do país, mas ainda não há uma unidade de internamento em cuidados
paliativos que é absolutamente necessária, também por outra razão: o São João é
um hospital universitário e se a morte está nas mãos dos profissionais de saúde
temos que formar os futuros médicos e os enfermeiros para a naturalidade da
morte. É no processo educativo que se começa a desatar este nó. E nem vale a
pena falar dos assistentes operacionais que são completamente excluídos do
processo formativo e eles têm uma proximidade aos doentes que não pode ser
ignorada. Eu intervim em vários processos em que os doentes souberam que
estavam a morrer pelos auxiliares, às vezes em conversas acidentais entre eles.
Os cuidados paliativos são a resposta para
a necessidade de ajudar os que estão a morrer?
Os cuidados paliativos são, não só o modo adequado de ajudar as pessoas no processo do seu morrer, como lugares de emergência de uma outra cultura que olha e aceita a naturalidade da morte. Nós transformamos a morte numa realidade artificial, medicamentalizamo-la desritualizamo-la, mas a morte é natural. E qual é o olhar original dos cuidados paliativos? É aceitar a naturalidade da morte. E a minha esperança é que os cuidados paliativos se desenvolvam o suficiente para serem uma fonte de regeneração da própria medicina, que não é uma luta contra a morte, mas uma luta a favor da vida e de uma vida vivida ao máximo, também quando se está a morrer. Viver ao máximo quando se está a morrer não é encharcar o doente de medidas invasivas e de medicação que impede que a morte aconteça num dia para acontecer dois dias depois.
Os cuidados paliativos são, não só o modo adequado de ajudar as pessoas no processo do seu morrer, como lugares de emergência de uma outra cultura que olha e aceita a naturalidade da morte. Nós transformamos a morte numa realidade artificial, medicamentalizamo-la desritualizamo-la, mas a morte é natural. E qual é o olhar original dos cuidados paliativos? É aceitar a naturalidade da morte. E a minha esperança é que os cuidados paliativos se desenvolvam o suficiente para serem uma fonte de regeneração da própria medicina, que não é uma luta contra a morte, mas uma luta a favor da vida e de uma vida vivida ao máximo, também quando se está a morrer. Viver ao máximo quando se está a morrer não é encharcar o doente de medidas invasivas e de medicação que impede que a morte aconteça num dia para acontecer dois dias depois.
O que acha da proposta sobre a morte
assistida?
Acho uma péssima proposta. Compreendo as
razões, tendo em conta este fundo cultural de que estivemos a falar, e
acrescentando a este fundo cultural uma outra dimensão que é a nota
profundamente individualista da cultura contemporânea. Agora a minha atitude em
relação a isto é que a morte de uma pessoa é terreno sagrado – e não falo no
sentido religioso - e em terreno sagrado a gente descalça-se. Ora, neste debate
em torno da morte assistida está demasiada gente a entrar de chancas, quer de um
lado quer do outro.
Posto de parte esse ruído, as pessoas devem
ou não ter o direito, legalmente constituído, de definirem a sua própria morte
e serem ajudadas nisso?
Na sociedade em que estamos fala-se muito
em direitos e esquecem-se os deveres. A questão que se coloca aqui é se o
Estado, enquanto representação da sociedade, tem o dever de responder
positivamente a quem pede para ser ajudado a morrer. Com tudo o que isto
encerra, porque a morte assistida medicamente (seja por eutanásia seja por ajuda ao suicídio) é uma
mudança de paradigma.
O Estado tem esse dever?
Não tem esse dever nem pode reivindicá-lo. O dever do Estado é
respeitar a vida dos seus cidadãos e proporcionar todas as condições para que
os seus cidadãos vivam o mais humanamente possível.
Numa situação em que um doente não tenha perspetivas
que não sejam de sofrimento e morte, qual deve ser a resposta do Estado?
Proporcionar-lhe todo o conforto que exista. E por isso volto
ao discurso da hipocrisia social: no Hospital de São João um doente pede uma
consulta de cuidados paliativos, mas o serviço, que é dos maiores e dos
melhores do país, é incapaz de responder a esse pedido porque tem listas de
espera e, muitas vezes, quando responde já o doente morreu. E é desta realidade
que temos de nos ocupar antes. Há pessoas que pedem para ser ajudadas a morrer,
ou que lhes deem a morte, e fazem-no convictamente, com uma história de vida
que justifica isso. Agora isto tem de ser polido com outra realidade que é a
saber se o Estado tem ou não o dever de fazer isto. Por outro lado, estas
situações não podem deixar de ser exceção.
E nessas situações de exceção qual deve ser
a resposta?
A resposta tem de ser “Nós não matamos, a lei é esta. O Estado
não mata nem responde positivamente a quem pede para morrer”. Mas há situações
de exceção e os organismos do aparelho do Estado têm a obrigação de ter para
com essas pessoas uma atenção e uma proximidade excecionais. E as pessoas
envolvidas no processo, ou outras que são chamadas a envolver-se, podem,
naquelas circunstâncias concretas, chegar à conclusão que essa ajuda deve ser
dada. Mas isso não pode deixar de ser um crime. Um crime que em sede de
julgamento se vai perceber que tinha todas as circunstâncias atenuantes
possíveis, o que resulta numa absolvição.
Mas isso implicaria que os profissionais de
saúde envolvidos tivessem de se submeter a todo um outro processo em sede
judicial.
Exatamente. De modo a impedir que isto se
tornasse usual. Porque a sociedade está a evoluir desumanamente, isto é, estão
a ser de tal maneira postas de lado franjas cada vez maiores da população que
cada vez haverá mais pessoas a pedir que as matem ou que as ajudem a morrer. A
minha questão é saber qual é o dever do Estado em relação a estas pessoas:
ajudá-las a morrer ou ajudá-las a preservar razões para continuar a viver?
Mas admitindo, como admitiu, que há
situações excecionais em que a pessoa deve ser atendida no pedido de que a
ajudem a morrer, o mais certo é que o médico se recuse a fazer algo que não
está previsto na lei.
Por isso é que falava há bocadinho das
pessoas envolvidas ou chamadas a envolver-se, porque pode acontecer que os
médicos e enfermeiros diretamente implicados não o queiram fazer por uma
questão de consciência.
Causa-me alguma estranheza o seu
raciocínio. Admite que sim, que ela pode ser pertinente nalgumas circunstâncias
excecionais, mas não quer isso previsto na lei.
Há biografias nas quais se consegue
enquadrar o pedido de morrer, são situações de exceção. E as situações de exceção
têm que ser tratadas sem as esvaziarmos do seu carácter de excecionalidade.
Mas se mantivermos a exceção na ilegalidade
cria-se uma série de problemas a quem a admite.
Mantém-se na exceção o seu carácter de excecionalidade.
E a sociedade debruça-se judicialmente sobre cada concretização da exceção e
essa exceção só se justifica quando estão reunidas todas as circunstâncias que
funcionam como atenuante para, em sede de julgamento, haver uma absolvição.
Esse escrutínio judicial deve ser
feito a posteriori?
Deve incidir só sobre situações acontecidas. Agora prever
anteriormente que o Estado tem o dever de responder ao pedido de matar, não.
Isso dissuadiria muitos profissionais de
saúde.
Também não quero acreditar que um pedido a
um profissional de saúde para que ajude alguém a morrer, seja assistindo a um
suicídio seja eutanasiando, se possa transformar numa coisa massiva. Isto é,
não é necessário que muitos profissionais de saúde se deixem dissuadir por
isto. Acho que as coisas se devem manter na dimensão que têm. E o que estamos a
assistir na sociedade portuguesa é ao empolamento de algumas destas questões.
Estou a tentar encontrar uma gaveta para
arrumar isto: despenalizava-se, descriminalizava-se, continuava a ser crime mas
ficava sem pena?
Não é despenalizar, é dizer que tem pena
mas que há circunstâncias atenuantes que retiram a pena. Mas a determinação das
circunstâncias atenuantes é feita, como em relação a todas as coisas que são
crime, em sede de julgamento.
Aquilo que me defende é nesse sentido,
admite que se faça na tal excecionalidade que desenhou mas continua a ser
crime, suscetível de uma investigação.
E de uma penalização. Mas é como digo, uma situação
em que se reúnam todas as condições que justifiquem que a situação aconteça, em
sede de julgamento não há pena, há circunstâncias atenuantes que justificam a
absolvição. Não pode ser confiado ao Estado o direito ou o dever de administrar
a morte a pedido e não pode ser pedido ao Estado o dever de ajuizar sobre como
isso é feito. Em termos de prática e da minha perceção da realidade, o que lhe
posso dizer é que isto não é fácil. Mas nada que tenha a ver com a morte é
fácil. Aliás, nada do que tem a ver com a substancia da vida é fácil. Tudo é
árduo.
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
MARIA TERESA SALGADO…
… UMA MULHER DE (DA) ESPERANÇA!
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| Dra. Maria Teresa Salgado de Morais |
Vinte e seis de setembro, é uma data
importante na vida de uma pessoa, na vida de uma família, na vida de uma
comunidade de irmãos, na vida do grande movimento que é o Voluntariado que se
realiza no campo da saúde; e para a Federação Nacional de Voluntariado em
Saúde. Falo da Professora Doutora Maria Teresa Cortez Salgado de Morais que
inesperadamente deixou o mundo dos vivos a 26 de setembro de 2005, “apesar dos seus setenta e oito anos cheios
de vida, de força, de juventude, de ternura, de alegria e de esperança.”,
como alguém afirmou em peça jornalística publicada na altura.

Segundo afirmou Dom Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto, na cerimónia das exéquias fúnebres, “a Professora Doutora Maria Teresa Salgado Morais é uma das pessoas que nos ajuda a reavivar a fé, a compreender o que é cultivar a esperança e deixa para o mundo um apelo a essa mesma esperança.”, cuja postura, repleta de amor e de tal “simplicidade que não deixava ninguém indiferente. O seu sorriso de bondade e a forma como acolhia mostrava-nos o conteúdo do seu bondoso coração.”

Segundo afirmou Dom Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto, na cerimónia das exéquias fúnebres, “a Professora Doutora Maria Teresa Salgado Morais é uma das pessoas que nos ajuda a reavivar a fé, a compreender o que é cultivar a esperança e deixa para o mundo um apelo a essa mesma esperança.”, cuja postura, repleta de amor e de tal “simplicidade que não deixava ninguém indiferente. O seu sorriso de bondade e a forma como acolhia mostrava-nos o conteúdo do seu bondoso coração.”
Para além de ter sido Professora de
Físico-Química no Instituto Superior de Engenharia do Porto e membro
da Comissão Nacional para a Humanização e Qualidade dos Serviços de Saúde e da Comissão
Nacional da Pastoral da Saúde, a Doutora Maria Teresa, lançou as bases e a
estrutura do que é hoje o Secretariado Diocesano da Pastoral da Saúde do Porto
que surgiu em 1983, onde teve responsabilidades de direção; implementou e
presidiu à Associação Voluntariado do Hospital de São João – Porto “onde
se deu inteiramente aos outros, sendo este hospital a sua segunda casa.”

A Doutora Teresa foi altamente considerada pelo Conselho de Administração do Hospital de São João que em tempo, dirigindo-se o aos voluntários, lhes disse da sua (do CA) “admiração por terem resistido ao desgaste da vossa generosidade. Às vezes dão-se e não são bem compreendidos». O CA terá salientado ainda o papel “da espetacular mulher que foi a Dr.ª Teresa Salgado que ajudou a Associação a resistir à erosão sem nada receber em troca”.
Ainda Dom Armindo, viria a salientar o
papel de voluntária da Doutora Teresa, afirmando que “No Hospital de S. João foi uma pioneira, uma apostola do voluntariado.
Voluntariado que vinha da paixão da solidariedade, da paixão pelas necessidades
dos outros.”, porque segundo ele, “estar
ao serviço num hospital é sobretudo ser um apelo, uma nota de esperança para os
que sofrem e estão em risco de perder a esperança. O entusiasmo na entrega
total ao voluntariado com a determinação própria de quem tem ideias e as
justifica pelas iniciativas. Apostolado que faz discípulos, o voluntariado
atingiu uma grande importância a nível nacional e ultrapassou fronteiras.”
A Federação Nacional de Voluntariado em
Saúde - FNVS também é fruto do entusiasmo, da entrega e do dinamismo da Doutora
Teresa, que sempre em harmonia com o seu marido, Benjamim de Morais, dinamizou
ou ajudou a criar inúmeras Organizações de voluntariado em muitas Unidades de
Saúde do Serviço Nacional de Saúde, participou ao mais alto nível do Estado e
aí defendeu o voluntariado no campo da saúde e de algum modo representou os
voluntários, essa multidão que ainda ninguém conseguiu contar.
A FNVS “nasceu” em maio de 2007, mas esse
facto foi o resultado do sonho sonhado pela Doutora Teresa e por quem a
circundava na atividade, nomeadamente por quem, olhando, não apenas para o
passado, mas sobretudo para o futuro, teve a coragem de, contra algumas marés
vivas ou revoltosas, rasgar os mares e seguir em frente em direção à
organização global do voluntariado em saúde de Portugal. Já somos muitos, mas
queremos ser mais. Somos 53 Organizações de voluntariado da saúde, o (talvez) equivalente
a um universo de cerca de 25 mil voluntários.
Embora possam existir diversos caminhos para que se atingir o mesmo objetivo, a verdade é que como a Doutora Teresa, continuamos a acreditar que este é o caminho. A Federação Nacional de Voluntariado em Saúde – FNVS é esse caminho para a integração, para a representação e para a defesa dos valores, dos direitos e dos interesses das inúmeras Ligas de Amigos e Associações de Voluntariado ou de Voluntários que atuam nas muitas Unidades de Saúde, públicas ou privadas, mas também nas comunidades e na educação e na promoção da saúde e de estilos de vida saudável.
Como Dom Armindo relativamente à Igreja do
Porto, também nós, aqui e agora, queremos tributar à Doutora Teresa, “homenagem e gratidão”. Ela que como a
mancha flutuante amarela e verde na Igreja da Trindade “fazia nascer sentimentos de alegria e de esperanças.” Também nós
ousamos testemunhar “a saudade do seu
sorriso que não morrerá, porque foi luz a iluminar caminhos de Esperança.”
Como um dia terá ela mesma afirmado, “dar
esmola material será caridade. / Mas dar a palavra firme / Dar tempo, disponibilidade
/ Dar-se a si mesmo… é sublime.”
Doutora Teresa! para si... a PAZ!
Nota!
Este blogue não se encontra completo. Isso só acontecerá se os leitores que conheceram e privaram com a Doutora Teresa, nos enviarem os seus testemunhos para o seguinte endereço eletrónico: geral.voluntariadoemsaude@gmail.com . Aguardamos os vossos contributos
Esta peça é da exclusiva responsabilidade de João António
Pereira, presidente da Direção da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde.
Porto, 26 de setembro de 2016.
http://www.etc.pt/VP/ler_seccao2820a.html?diranter366*8%7C2
![]() |
| Benjamim de Morais |
Benjamim Martins de Morais:
"Depois de atentamente ler o vosso
texto de homenagem à Maria Teresa, sinto-me lisonjeado com a obrigação de
agradecer e, convosco, continuar esta caminhada iniciada por ela. Um
Bem Haja a todo(a)s.”
domingo, 18 de setembro de 2016
O AMOR jamais acabará.
É PARA SEMPRE!
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| Madre Teresa de Calcutá |
Nos primeiros dias deste mês de setembro,
aconteceu no Vaticano, o denominado Jubileu do Voluntariado e dos Operadores da
Misericórdia, que terminou com a canonização da Madre Teresa de Calcutá.
Se existe consciência generalizada de que nem
todos os voluntários são crentes em alguma divindade ou professam alguma
religião… também é inegável que muitos deles são membros de diversas igrejas e
denominações eclesiais; e que se encontram verdadeiramente empenhados na
promoção do bem-estar, na ajuda desinteressada e no desenvolvimento. Essa
realidade, evidenciada pela história, longe de ser fonte de dificuldade no desenvolvimento
de projetos e ações de voluntariado, é antes mais e muitas vezes, uma mais
valia que não pode nem deve ser escamoteada e que tem que ser querida, apoiada
e acarinhada.
Na Praça de S. Pedro em Roma, estiveram muitos
voluntários. Aqueles que certamente são membros da Igreja Católica Apostólica
Romana; e que atuam contextualizados em Organizações tão diversas e tão
conhecidas como a Cáritas, a Sociedade de S. Vicente de Paulo, os Centros
Sociais Paroquiais ou as Santas Casas da Misericórdia, estruturas e serviços
eclesiais que com muitas outras atuam no campo da solidariedade, das respostas
sociais ou no campo da saúde, denominando-se muitas delas (em
Portugal) como IPSS – Instituições Particulares de Solidariedade Social, que
incluem boa parte das Organizações de Voluntariado em Saúde bem conhecidas nas
Unidades de Saúde do serviço Nacional de Saúde e outras; e na comunidade.
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| Papa Francisco |
Do que foi dito pelo Papa Francisco, pelo
menos no discurso (catequese) que proferiu no dia 3 e na homilia do dia 4, é
minha convicção, serem importantes algumas afirmações que logo no início do
primeiro afirma que “ao contrário da fé e
da esperança, o amor «jamais acabará» (v. 8): é para sempre.”(; e continua
dizendo que esse amor “é um amor que
permanece para sempre jovem, ativo, dinâmico capaz de atrair para si de modo incomparável. É um
amor fiel que não
trai, apesar das nossas contradições. É um amor fecundo que gera e conduz para além da nossa preguiça. É
desse amor que todos nós somos testemunhas. (…) como um rio na cheia que nos
arrasta, mas sem nos anular; muito pelo contrário, é uma condição de vida: «se
não tivesse amor, eu nada seria»”.
O amor de que fala o Papa, segundo ele, “não é algo abstrato e vago; pelo contrário,
é um amor que se vê, se toca e se experimenta em primeira
pessoa.” Depois de aludir ao episódio do bom samaritano, Francisco afirma
sem rodeios que “não é possível desviar o
olhar e tomar outra direção para não ver as muitas formas de pobreza que pedem
misericórdia. Isso de tomar outra direção para não olhar a fome, as doenças, as
pessoas exploradas...” E dirigindo-se diretamente aos presentes, diz-lhes
que “Isso é um pecado grave!” E para
os cidadãos em geral, se isso não for culpa, será pelo menos ausência de cumprimento de dever e de
empenhamento sério a favor dos outros cidadãos que se encontram em situação de
desfavor, de carência, de debilidade, e enfermos ou incapacitados.
Referindo-se à misericórdia de Deus,
Francisco disse que nunca se cansará de dizer que aquela “não é uma ideia bonita, mas uma ação concreta. Não existe misericórdia
sem concretização. A misericórdia não é fazer um bem “de passagem”; significa
comprometer-se onde está o mal, onde há doença, onde há fome. Onde há tantas
explorações humanas. E até mesmo a misericórdia humana não é autêntica – ou
seja humana e misericórdia - enquanto não alcança a concretização no seu agir
diário.”
Sendo mais uma vez direto aos presentes, o
Papa disse-lhe com energia “vós representais
aqui o grande e variado mundo do voluntariado. (…). Vós sois artesãos de misericórdia: com as
vossas mãos, com os vossos olhos, com a vossa escuta, com a vossa proximidade,
com as vossas carícias... sois artesãos! Exprimis o desejo - entre os mais
belos no coração do homem: fazer com que a pessoa que sofre se sinta amada. (…)
enfim, onde quer que exista um pedido de ajuda, ali chega o vosso testemunho
ativo e desinteressado.”
Não deixando de se dirigir diretamente aos
presentes, Francisco exortou-os: - “Estai
sempre prontos para a solidariedade, fortes na proximidade, diligentes para
despertar alegria e convincentes na consolação. O mundo precisa de sinais
concretos de solidariedade, especialmente diante da tentação da indiferença, e
exige pessoas capazes de se oporem com as suas vidas, ao individualismo, pensando só
em si mesmo, ignorando os irmãos em necessidade. Estai sempre contentes e cheios
de alegria pelo vosso serviço, mas nunca fazei dele um motivo de presunção que
leva a se sentir melhor do que os outros. (…).”
E já no discurso (homilia) do domingo,
referindo-se a textos lidos no ato, o Papa dirige-se diretamente aos voluntários
presentes e diz-lhes que “hoje, a “grande
multidão” é representada pelo vasto mundo do voluntariado, aqui reunido por
ocasião do Jubileu da Misericórdia. (…). Quantos corações os voluntários, confortam! Quantas mãos apoiam; quantas lágrimas enxugam; quanto amor é
derramado no serviço escondido, humilde e desinteressado!”. E ainda que “os voluntários que servem os últimos e
necessitados (...) não esperam nenhum agradecimento ou gratificação, mas
renunciam a tudo isso porque encontraram o amor verdadeiro.” Porque o que os
move é o amor verdadeiro. E mais uma vez: o amor verdadeiro não tem preço nem se cobra.
Ainda na sua homilia, Francisco referiu-se a
Madre Teresa dizendo que “ao longo de
toda a sua existência, foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina,
fazendo-se disponível a todos, através do acolhimento e da defesa da vida
humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. Comprometeu-se na
defesa da vida, proclamando incessantemente que «quem ainda não nasceu é o mais
fraco, o menor, o mais miserável». Inclinou-se sobre as pessoas indefesas,
deixadas moribundas à beira da estrada, (…) fez ouvir a sua voz aos
poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos
crimes ― diante dos crimes! ― da pobreza criada por eles
mesmos. A misericórdia foi para ela o “sal”, que dava sabor a todas as suas
obras, e a luz que iluminava a escuridão de todos aqueles que nem sequer tinham
mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento.”
O Papa citou Madre Teresa, que segundo ele,
ela “gostava de dizer: «Talvez não fale a
língua deles, mas posso sorrir»”. E voltando-se
para os voluntários presentes, exortou-os de novo, e desta vez dizendo-lhes: “Levemos no coração o seu sorriso e o
ofereçamos a quem encontremos no nosso caminho, especialmente àqueles que
sofrem. Assim abriremos horizontes de alegria e de esperança numa humanidade
tão desesperançada e necessitada de compreensão e ternura.”([i])
Nota: não sei se consigo dizer algo mais
para além do que acabo de transcrever e produzir. Mesmo assim, adianto: tenho
perfeita consciência que existem voluntários a quem o que disse o Papa poderá
não lhes dizer muito por não se sentirem sintonizados com aspetos de fé ou de
religião. Mas há muitos outros para os quais as coisas não são bem assim. Uns e
outros, todos são cidadãos. Todos os cidadãos devem (têm) que ser respeitados
porque, todos eles “têm a mesma dignidade
social e são iguais perante a lei.”([ii])
E “ninguém pode ser privilegiado,
beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer
dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem,
religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica,
condição social ou orientação sexual.”([iii]).
Misericórdia já não é termo, tema ou coisa,
que tenha apenas que ver com a esfera do espiritual e do religioso, seja no
catolicismo romano seja no islamismo ou em outra denominação religiosa. “Misericórdia
é
um termo amplo que se refere a benevolência, perdão e bondade em
uma variedade de contextos éticos, religiosos, sociais e legais.”, e que no contexto social e legal, pode
referir-se ”tanto ao comportamento
compassivo por parte de quem está no poder (por exemplo, a misericórdia
mostrado por um juiz no sentido de um presidiário), humanitário ou por parte de
um terceiro, por exemplo, uma missão de misericórdia com o objetivo para tratar
as vítimas de guerra.”([iv])
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| Podemos simplesmente... ser! |
Misericórdia tem a ver com voluntariado,
tem a ver com o voluntariado no campo da saúde, e tem a ver com todos nós. Sim,
porque é o dever, é o sentido do outro, é o sentido de que cada um de nós não é
uma ilha, é o sentimento de amor, é a emoção de quem ama, é a certeza que somos
pessoas e cidadãos dotados de elevada dignidade; e que por isso não cruzamos os
braços nem ficamos imutáveis, onde quer que exista um pedido de ajuda. Aí damos
o nosso testemunho ativo e desinteressado, sem esperarmos recompensas nem
mordomias. Como Madre Teresa, mesmo que não falemos a língua de quem servimos, podemos
sorrir, podemos ser ajuda ativa e silenciosa. Podemos simplesmente…. Ser!
Este blogue é da inteira responsabilidade do autor: - João António Pereira, presidente da Direção da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde. Não implica responsabilidade de qualquer outro membro do órgão citado. Porto, 18 de setembro de 2016.
sábado, 17 de setembro de 2016
SEJAMOS AGENTES ATIVOS
NA CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE NOVA!
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| Dom José Ornelas, Bispo de Setúbal |
Há dias em Fátima, em contexto da
peregrinação aniversária de setembro, o Bispo de Setúbal Dom José Ornelas de
Carvalho ([i]),
apelou aos participantes no ato, para que sejam “agentes ativos na construção de uma sociedade nova”; e
referindo-se aos refugiados, disse: “não
olhem com indiferença para os milhões de refugiados e miseráveis, que ficam à
margem das estradas da nossa sociedade. (…). Sejam portadores de vida, de
misericórdia para as vossas famílias e comunidades!”; (…) e sublinhou, para
além dos aspetos relativos à fé e à religião, a “importância da disponibilidade (…)” para a transformação da
sociedade, em gestos concretos.
Dom José continuou: “juntos sentimos a urgência (…) de empenhar-nos seriamente na eliminação
da guerra, da injustiça, da indiferença perante a miséria e os conflitos que
afligem milhões de pessoas em todo o planeta”; e afirmou ainda,
dirigindo-se aos presentes, dizendo-lhes que:
“não vivam apenas com saudades do passado (…) não tenham medo do mundo que muda
tão radical e rapidamente”.
Sobre as famílias e as situações dramáticas
que muitas delas vivem, Dom José disse que devemos dar: “espaço ao acolhimento, à solidariedade e ao encorajamento, à vida e à
ternura nas nossas famílias, nas suas horas felizes e, sobretudo, quando elas sentem
o peso das dificuldades e das crises”, apelou ainda elogiando, por outro
lado, o amor dos que até ao fim da vida “renovam,
com carinho, a alegre partilha do amor que guiou a sua existência”.
D. José Ornelas, quase a terminar, convidou
a uma mudança de relacionamentos, na família, na sociedade e na Igreja, onde “tantas vezes falta o vinho do amor, da
ternura, da solidariedade (…) da cordialidade, da atenção aos que sofrem a fome,
assim como a negligência e o abandono.”
E a nós, voluntários no campo da saúde, que
tem tudo o que disse Dom José Ornelas, a ver connosco? O que foi dito é forte.
É mesmo muito forte. E tem a ver connosco. Se cada um de nós quiser, é claro.
Logo de início apela-se à assunção do papel de agente ativo na construção de
uma sociedade nova. Mas a ação empenhada na vida da sociedade não é privilégio
de alguém em particular ou de algum grupo específico. É dever de cada um e de
todos os cidadãos, independentemente da sua “ascendência,
sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou
ideológicas, instrução, situação económica ou condição social.”; e “todos os cidadãos têm a mesma dignidade
social e são iguais perante a lei.”, e “ninguém
pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou
isento de qualquer dever” ([ii])
em razão do que acaba de ser enunciado.
Para os voluntários do campo da saúde, olhar com indiferença quem deles se abeira, não é a sua matriz, não é o que está no seu coração e na alma, não é o seu princípio
de atuação, nem é a sua prática diária. Quem se abeira dos voluntários, seja
nos hospitais, nos centros de saúde ou nas comunidades, sabe e conhece bem que
aqueles estão ali para atender, para acolher com solicitude, para ser recurso
de complemento de bem-fazer, de ajuda à cura e à promoção do bem-estar e à qualidade de vida - vida saudável.
Essas inúmeras pessoas, ajudadas e servidas
pelos voluntários do campo da saúde, como a tratada pelo “bom samaritano”, não são
só daquele e de todos os tempos, mas, e sobretudo, do tempo que é o nosso. Deste
tempo. Elas são refugiadas, elas são carenciadas económicas, físicas ou mentais,
doentes ou moribundas e outras. Elas são, como diz o Papa Francisco, as “periferias existenciais, onde há
sofrimento, solidão e degradação humana([iii])”.
São quem está “out” e não “in”. E são elas que de modo gritante nos apelam a que
não passemos ao lado sem fazer nada, a que, como o “bom samaritano”,
continuemos a preocupar-nos com os outros, que atuemos sempre a favor do bem; e
que ajudemos em qualquer circunstância, sem segundas intenções nem falsos interesses. Quem ama não cobra.
Somos muitos os que integram esta grande cruzada de fazer o bem, presente em muitas Unidades de Saúde do Serviço Nacional de Saúde e nas comunidades. Havemos de ser mais. Considerando o que disse Dom José Ornelas, juntos sentimos a urgência, mas a premência e a atualidade do empenhamento sério, não só com vista à eliminação da injustiça e da indiferença, mas também porque acreditamos que somos portadores de vida e de misericórdia ([iv]). Essa realidade pode, se quiserem, ser comparada ao “cálice que transborda” de alegria, de amor e de esperança, deixando a sua marca (positiva) quase sempre indelével em algum lugar ou em alguma pessoa.
Não tenhamos medo do mundo que muda tão
radical e rapidamente. Com alegria, partilhemos Amor que guia a nossa
existência e a nossa ação. Bem-haja voluntários da saúde!
Este blogue é da inteira responsabilidade do autor: - João António
Pereira, presidente da Direção da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde. Não implica responsabilidade de qualquer outro membro do órgão citado. Porto, 17 de setembro de 2016.
[i] http://www.fatima.pt/pt/news/igreja-tem-de-estar-atenta-a-familias-em-situacoes-dramaticas-diz-bispo-de-setubal-em-fatima
[ii] Constituição da República Portuguesa,
artigo 13.º (Princípio da igualdade), Lisboa, 2001.
[iii] http://papa.cancaonova.com/francisco-convida-bispos-a-irem-as-periferias-existenciais/
[iv] Misericórdia é
um termo amplo que se refere a benevolência, perdão e bondade em
uma variedade de contextos éticos, religiosos, sociais e legais. In.: https://pt.wikipedia.org/wiki/Miseric%C3%B3rdia
quinta-feira, 15 de setembro de 2016
Razões para comemorar
O Serviço Nacional de Saúde
Se existe opinião consensual na sociedade
portuguesa, a ideia que é na saúde que existe o melhor serviço público do país
será, seguramente, uma das mais frequentes. Para muitos, pode não passar de um
lugar-comum, debitado consoante os ventos políticos que sopram no momento. Mas,
para os profissionais que nele trabalham, é, além de uma constatação justa, o
reconhecimento mínimo perante a complexidade do trabalho que desenvolvem.
Diga-se o, que se disser, são eles que
constituem, de facto, o maior ativo do Serviço Nacional de Saúde (SNS). São
protagonistas e embaixadores em simultâneo. Vestem a camisola da causa pública.
Compreendem a importância e dimensão do seu trabalho, que garante um acesso
justo e equitativo à Saúde. Que providencia bem-estar e qualidade de vida a uma
população que não tem oportunidade de recorrer a outros cuidados. E que
assegura a manutenção de um serviço público que, pela sua natureza e definição,
irá sempre garantir o que o sector privado não terá interesse em oferecer.
Olhando o exemplo dos médicos, vejo na
esmagadora maioria dos 26 mil colegas que trabalham no SNS extraordinários
exemplos de competência, idoneidade e dedicação. São públicos os nossos motivos
de descontentamento: não existimos em número suficiente para as necessidades
hospitalares e nos cuidados de saúde primários; trabalhamos com meios escassos
e estruturas subfinanciadas; estamos constrangidos no acesso a meios de
diagnóstico e terapêutica; penamos numa arquitetura informática pesada,
burocrática e ineficiente; somos efetivamente mal pagos para o nível de
qualificação técnica e de responsabilidade que a profissão exige.
É indesmentível que as condições são
precárias. Poderia citar inúmeros exemplos concretos que tive oportunidade de
constatar nos anos em que exerço funções dirigentes na Ordem dos Médicos. Cito
dois em particular e dos mais recentes, o Hospital de Vila Real e o Centro de
Saúde Fernão de Magalhães, em Coimbra. O primeiro é um verdadeiro estudo de
caso: uma unidade que é sede de um Centro Hospitalar – Trás-os-Montes e Alto
Douro – com mais de 450 mil utentes na sua área de intervenção, que é
classificada pelo Ministério da Saúde como um hospital polivalente, mas cujos
serviços estão de tal forma carenciados em termos de médicos que, na realidade,
a prestação de cuidados está mais próxima de um hospital menos qualificado. O
segundo exemplo, que pude testemunhar há poucos meses atrás, é possivelmente
das unidades de saúde com condições físicas mais precárias e inseguras que já
vi. Um espaço assustador, que desafia a integridade física dos profissionais e
utentes, e que envergonha um país do mundo civilizado.
Os dois casos que refiro têm um aspeto
comum: o exemplar sentido de compromisso dos seus médicos e restantes
profissionais. O testemunho que recolhi em ambas as instituições - replicável
em muitas outras - é de resiliência face às dificuldades e de uma grande
dedicação aos respetivos serviços, que coloca os doentes e a ética profissional
acima dos interesses individuais.
Esta é, felizmente, a regra e não a exceção.
Os médicos não são privilegiados de coisa nenhuma. São servidores públicos de
excelência e representam o que de melhor o país consegue produzir em termos
académicos, técnicos e científicos. De resto, se o SNS consegue comparar,
muitas vezes favoravelmente, com sistemas de saúde em países mais
desenvolvidos, em muito se deve à competência e qualidade dos seus quadros.
Haja também consenso político nesta
matéria. No dia em que se assinalam os 37 anos do Serviço Nacional de Saúde,
reconheça-se e valorize-se o trabalho daqueles que o constroem diariamente.
MIGUEL GUIMARÃES, Presidente do
Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos
https://www.publico.pt/sociedade/noticia/razoes-para-comemorar-o-sns-1744059
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