domingo, 10 de julho de 2016

Pelos caminhos do voluntariado

CONTA COMIGO
(Reportagem Especial da SIC, emitida a 3 de julho).

São cada vez mais as pessoas que assumem o voluntariado como forma de estar na vida. Homens e mulheres, reformados ou em idade ativa, fazem tempo para dar aos outros.
Voluntárias da LAHNSA, Seia

Nos hospitais do interior do país, entre as Beiras e Trás-os-montes, onde a humanização dos serviços é mais do que uma emergência médica, ou em pequenas comunidades onde cresce o número de idosos sem família por perto. Ninguém espera nada em troca, mas todos sem exceção dizem-se compensados quando recebem um simples sorriso.

Aceda aqui à reportagem:

terça-feira, 5 de julho de 2016

Também pelos caminhos do voluntariado...

Faleceu ALZIRA BRAGA

Exmos. Srs.
É com enorme pesar e profunda consternação que informamos que a nossa colega da Direção da Federação, Alzira Braga, que desempenhava o cargo de tesoureira, faleceu na noite de sábado para domingo último (de 3 para 4 de junho de 2016).

O corpo da nossa muito estimada colega, encontra-se em câmara ardente desde as 17 horas de hoje em Gondomar, localidade onde as cerimónias fúnebres se realizam amanhã, dia 6, a partir das 15 horas.
Alzira Braga, de seu nome completo, Alzira Maria Braga de Sousa Oliveira Cavalheiro Gomes, que residia em Gondomar, para além de membro da Direção da Federação, era-o também da Associação Voluntariado do Hospital S. João e de outras associações do concelho de residência.

Alzira Braga nasceu em Penafiel a 31 de março de 1952, mas foi na cidade do Porto que concluiu a licenciatura em "Animação Sócio-Cultural", na Escola Superior de Educação (ESE) do Porto, em 2002. Profissionalmente, além de artista, exerceu a actividade docente como Professora do 1º Ciclo do Ensino Básico. Ao longo do tempo, leccionou em estabelecimentos de ensino localizados nos Concelhos de Marco de Canaveses, Penafiel e Gondomar.

Foi como professora na cidade de Gondomar que ali pôde satisfazer o desejo que nascera de longa convivência com familiares ligados às Artes Plásticas: estudar pintura e desenvolver saberes sobre técnicas de pastel, carvão e óleo sobre tela. E, porque gostava de estar e participar, fez-se sócia e dirigente da ARGO - Associação Artística de Gondomar.
Usava o pseudónimo Pequenú e foi já como Pequenú, seu "petit nom" de infância, que assinou os primeiros trabalhos. Iniciou-se pincelando flores, recantos pitorescos e naturezas mortas que então dominavam a sua sensibilidade. Com a marcha do tempo, foi evoluindo para outras temáticas, aperfeiçoando e avançando agora na expressividade dos rostos, na volúpia dos nus e no encantamento da paisagem portuense, que nunca se esgota. Estreou-se, em exposições colectivas, em espaços como o Ateneu Comercial do Porto, em 1981. Seguidamente, passou a expor os seus trabalhos em diversas galerias, localizadas no Porto, Gondomar, Paredes, Penafiel, Espinho e Barcelos. Em 1993, aventurou-se a expor individualmente.
Como dirigente da ARGO, trabalhou pela divulgação das atividades artísticas no concelho de Gondomar. Realizou várias exposições individuais, destacando-se em 1993 - no Restaurante “O Bule” - Foz, Porto; em 1994 - também Restaurante “O Bule” - Foz, Porto; em 1995 - no Restaurante “O Solar de Leça” - Leça da Palmeira; em 1997 – no Convento do Vale das Pereiras - Ponte de Lima; em 1998 - na Junta de Freguesia de S. Mamede Infesta / Casa da Cultura de Fânzeres; em 2000 - no Auditório Municipal de Gondomar; em 2001 - no Ayuntamiento de Murcia - Espanha; em 2002 - no Restaurante “Galeria” - S. Mamede Infesta. A última exposição, realizou-a já este ano na Casa Branca de Gramido, Gondomar.

À família de Alzira Braga, a Direção da Federação apresenta sentidas condolências.
Porto, 5 de julho de 2016
A Direção da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde

Este texto foi produzido pelo presidente da Direção da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde e com recursos recolhidos em http://letraseartes.com/index.php?option=com_sobi2&sobi2Task=sobi2Details&sobi2Id=3&Itemid=2

domingo, 3 de julho de 2016

Pelos caminhos do voluntariado....

Quanto vale o voluntariado?
“Devemos medir o valor económico do voluntariado?” Esta é a pergunta que domina as conclusões do final do encontro “Colocar o voluntariado no mapa económico da Europa”, organizado pelo CEV (Centro Europeu do Voluntariado), em 2008. Trata-se de uma questão crucial, e em nosso entender, bem longe de ser resolvida dentro e fora do mundo do voluntariado e da comunidade académica. O mesmo relatório do CEV dá destaque às argumentações contrárias à avaliação económica do voluntariado e reconhece que a medição financeira do voluntariado deve ser acompanhada e integrada com indicadores e métodos capazes de avaliar a contribuição do voluntariado para a “coesão social, a integração, a inclusão social, a participação ativa, a saúde, o desenvolvimento pessoal, a promoção do capital social e o empoderamento, etc.” (CEV, 2008: 7). Ou seja. É necessário – enfatiza o CEV – desenvolver uma metodologia e instrumentos que tornem visíveis os impactos da filosofia e dos princípios inspiradores do voluntariado” ( [i] ).
O que é o voluntariado, e o que visa? “O voluntariado é o conjunto de ações de interesse social e comunitário realizadas de forma desinteressada por pessoas, no âmbito de projetos, programas e outras formas de intervenção (…)” (Lei 71/98); de imediato, visa ser um serviço às pessoas, às famílias. Mas; e a outro nível, o voluntariado é também a expressão do exercício livre de uma cidadania ativa e solidária, em ambiente de autonomia e pluralismo. Por isso, o Estado português reconhece que o voluntariado tem valor social; e se assumiu como seu promotor, ao definir as bases do seu enquadramento jurídico.
E ainda; o exercício do voluntariado, baseia-se em valores e em princípios que o diferenciam. Valores como a solidariedade, a responsabilidade, a convergência, a gratuidade, a cooperação, a complementaridade e a participação, são suficientemente fortes para que não deva existir qualquer confusão com qualquer outra atividade que tenha como primeira finalidade, a produção de riqueza.
Por exemplo, o voluntariado não é individualista. É solidário. Todo e qualquer cidadão, por si mesmo e com os outros, é responsável pelos outros cidadãos; e pela promoção de cada um deles e de todos, porque todos são dotados de elevada dignidade.
O voluntariado é um exercício gratuito. Por isso, o voluntário não é remunerado, nem pode receber subvenções ou donativos pelo exercício do seu trabalho voluntário.
E também: em Organizações cuja base de operacionalidade se encontra em colaboradores com vinculo laboral ou similar, a atividade voluntária é complementar à dos outros colaboradores; e os voluntários não devem substituir os recursos humanos não voluntários. Para além de que, as motivações de uns colaboradores são completamente diferentes dos outros, implicando diferentes modos de gestão.
Pode aceitar-se que o voluntariado seja medido em termos do seu contributo para a economia. Mas o que vale o voluntariado, não se restringe à economia, à produção de riqueza. O voluntariado vale muito mais que isso. As pessoas valem muito mais que isso. Pode mesmo dizer-se que as pessoas, dada a sua suprema dignidade, pode mesmo dizer-se… que valem mais que todo o ouro do mundo.
Mesmo que o queiramos, não nos fiquemos apenas pelo aspeto do valor económico. Olhemos à volta e vejamos os impactos do exercício do voluntariado: logo, e à partida, nas pessoas. Não apenas em algumas. Vejamos esses impactos, por exemplo nos voluntários, nos beneficiários da ação voluntária, nos outros colaboradores das Organizações de Enquadramento; e nas outras pessoas que de algum modo estão em relação próxima com a atividade, mas que não beneficiam diretamente dela.
Umas pessoas poderão manifestar “que bem que me sinto depois de uma tarde de voluntariado
no Hospital! Foi tão cansativo, mas ao mesmo tempo tão gratificante!” Outras poderão desabafar que “aquela senhora voluntária é tão amorosa, tão compreensiva… ponho-me p’rá qui a falar e ela nunca me manda calar nem dá bitaites. É tão boa companhia! Quando ela está, o tempo passa tão depressa!...”. Outras poderão referir que “dantes não era assim. Desde que há cá um grupo de voluntariado organizado… parece que o serviço até corre melhor. Parece que até na nossa equipa de profissionais, as coisas andam melhor!... Vale mesmo a pena termos voluntariado cá na UCC.” Outras ainda, as menos próximas do projeto de voluntariado, poderão também dizer que “eu não sei bem o que se passa. Mas que mudança terá havido no Centro de Saúde que agora parece que somos tratados com mais simpatia, mais cordialidade; e diga-se mesmo: com mais respeito. Será que a entrada dos voluntários ao serviço foi a gota de água para que as coisas mudassem para melhor?”.
Pois é. É que o valor do voluntariado, não é apenas económico. É também pessoal. É social. E no que concerne ao voluntariado que se realiza no campo da saúde, os aspetos não económicos, são muito mais evidentes. A companhia, o acompanhamento, a ajuda no acesso aos serviços e aos cuidados, a facilitação no desempenho de tarefas básicas da vida diária, mesmo em caso de internamento, em face das reais situações dos beneficiários e ante a evidente disponibilidade dos voluntários, estes aspetos não económicos, digam-se impactos, são por demais valorizados por todos os protagonistas e pelas Organizações. E estas, as Unidades de Saúde, maioritariamente do Serviço Nacional de Saúde, sabem isso e comunicam-no quer por palavras quer por atos.
De facto, no campo da saúde, as posturas e os gestos do voluntariado e dos voluntários, até podem ser irrelevantes em termos materiais ou físicos. Mas a nível cultural, da espiritualidade, dos sentimentos ou das emoções… e também ao nível da terapêutica, o valor aportado à prestação dos cuidados é de uma dimensão que não se pode contar. Trata-se de humanidade. Trata-se de considerar as pessoas, todas as pessoas que se encontram em situações de carência, de desfavor, de fragilidade e diminuídas ou dependentes. A obrigação solidária também passa por certo tipo de atuação que implique respeito pela dignidade dessas pessoas, que contribua para a melhoria do seu bem-estar, da qualidade da sua vida¸ que promova a sua autonomia e a sua liberdade, bem como o seu desenvolvimento pessoal humano e espiritual, no respeito pelas vontades e pelas diferenças.
No campo da saúde, faz sentido medir o valor económico do voluntariado? Na verdade, não sei. O que sei é que se deve estar atento ao assunto. Em termos de Organização, pode ser interessante abordar o assunto. Mas, como se repara, em saúde, os impactos mais evidentes do voluntariado, são muito mais ao nível do que (pelo menos no presente) não se afigura passível de ser medido do que ao contrário. No entanto não é uma coisa má, que as Organizações comecem a fazer o exercício do estabelecimento de objetivos mensuráveis de atuação, a procederem à sua monitorização e à produção de relatórios estatísticos. Isso até pode revelar-se interessante relativamente à valoração das relações e das parcerias com as Unidades de Saúde.
Agora, o que pode ser nefasto no campo da saúde, é haver uma forte dedicação ao aspeto do valor económico do voluntariado descurando os demais impactos (e positivos por demais). Se assim vier um dia acontecer, certamente que valores com a solidariedade, a gratuidade, a disponibilidade; e outros que suportam concetualmente o voluntariado e lhe dão alma, poderão correr o risco de dar lugar ao individualismo, à corrida desenfreada na realização de objetivos, ao mercantilismo; e à perca do sentido de humanidade e do outro. Ora, um dos grandes objetivos do voluntariado no campo da saúde, é a humanização. E sem voluntariado, o contributo para a humanização, afigura-se incompleto. Esse grande contributo passa, não por discursos, mas pela ação diária, próxima e concreta dos voluntários nas Unidades de Saúde.
Qualquer que seja a direção que prossiga a discussão e a implementação do assunto “medição do valor económico do voluntariado”, é importante, e sem o desvalorizarmos, que pelo menos a Federação Nacional de Voluntariado em Saúde e as Organizações que a constituem, evidenciem e reclamem que mais que aquele, o que conta são as pessoas e o valor associado às pessoas e à humanização. No dia em que se pretender medir os sentimentos, as emoções e a dignidade da pessoa, esta perde a sua humanidade.
João António Pereira, presidente da Direção da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde.
Porto, 3 de julho de 2016


[i] In.: - Voluntariado em Portugal, contextos, atores e práticas, Fundação Eugénio de Almeida, Évora, s/data.

domingo, 19 de junho de 2016

Pelos caminhos do voluntariado...

A CERTIFICAÇÃO DE VOLUNTÁRIOS.
QUE CERTIFICAMOS?

A 16 deste mês, certo órgão da comunicação social ([i]) publicou uma peça intitulada “Valongo tem mais 16 voluntários certificados”. E o texto continuava assim: “16 formandos que concluíram mais uma formação no âmbito do banco local de voluntariado, receberam, esta semana, os seus certificados.Após 16 horas de formação, as voluntárias e voluntários poderão colaborar em vários projetos do município, (…) explica a Câmara Municipal de Valongo. A “Formação Geral para o Voluntariado” tem como principal objetivo preparar os voluntários para enfrentar a realidade social, dotando-os de competências que serão uma mais-valia no exercício das funções, uma vez que “o voluntariado não se improvisa, aprende-se”. Durante a formação foram abordados os temas: solidariedade, participação e cidadania global, motivações para o voluntariado, riscos da ação voluntária, responsabilidade dos voluntários e das instituições, relacionamento interpessoal, relação de ajuda no voluntariado, trabalho em equipa e gestão de conflitos.”
Se por um lado, é direito do voluntário “ter acesso a programas de formação inicial e contínua, tendo em vista o aperfeiçoamento do seu trabalho voluntário (Lei 71/98); por outro lado, uma das atribuições dos Bancos Locais de Voluntariado, é precisamente promover Formação Inicial para os Voluntários. Até aqui não tenho dúvidas, em virtude de conhecimento adquirido em prática e reflexão no âmbito do voluntariado, nomeadamente no que se realiza no campo da saúde.
As minhas dúvidas situam-se ao nível da certificação. Quando na peça se afirma que os “formandos que concluíram mais uma formação (…), receberam, (…) os seus certificados.”, está a falar-se de quê? De que certificação se está a falar? De frequência de uma ação? De participação em uma atividade? De aquisição de competências? De aprendizagens em voluntariado? Os formandos ficaram mesmo dotados de competências para o exercício do voluntariado? Ou já eram dotados das mesmas, antes de participarem na ação de formação? Desculpem-me todas e todos aqueles que de modo responsável e sério se encontram envolvidos na formação e capacitação dos agentes do voluntariado. Dezasseis horas de formação inicial, não dota ninguém para o exercício do voluntariado, tanto mais quando se trata de voluntariado do âmbito da saúde, do social e da relação próxima com as pessoas, nomeadamente em equipamentos de respostas sociais ou mesmo em domicílios e na comunidade.
A formação inicial para voluntários, deve ter como finalidade a transmissão de informação sobre o enquadramento dos voluntários na ação e na (nas) instituição (instituições); e como objetivos: proporcionar aos formandos, o conhecimento da missão, da história, cultura, organização e áreas de intervenção da(s) Entidade(s) Promotora(s) do(s) Programa(s) de Voluntariado / de Enquadramento dos Voluntários; o conhecimento dos papéis e das funções a serem exercidas pelos voluntários; e conceitos base sobre voluntariado, direitos e deveres das partes envolvidas, bem como a atitude e a ética do voluntário.
A atividade de voluntariado é de um nível e nobreza tal; e as pessoas, todas elas, são tão importantes e tão dotadas de dignidade, que a relação de ajuda para com elas, seja em que setor for, mas sobretudo no da saúde e no social… que a atividade de voluntariado com esse grau de proximidade (e quiçá, de cumplicidade) só pode e deve ser protagonizada com voluntários devidamente formados e capacitados, em termos pessoais, operacionais, relacionais e outros que se exijam em cada situação concreta.
A capacitação dos agentes de voluntariado deve ser um processo contínuo que se inicia logo no recrutamento e na seleção dos candidatos, e que não termina aí. O “vinho novo deve ser colocado em odres novos e não em odres velhos” – quem quiser que entenda! Logo à partida, quem provavelmente poderá vir a ser selecionado para a atividade de voluntariado, tem que logo aí, revelar aspetos básicos do perfil adequado à atividade e às funções, e só os que isso evidenciarem, deverão então continuar em direção às fases seguintes de processo, onde se inclui a frequência de ações de formação inicial.
Também e muito, ao nível da coordenação, da direção técnica e mesmo institucional, o voluntariado, os voluntários e a população alvo, requerem, ou melhor…. exigem, as melhores, as mais sérias, as mais capazes e as mais responsáveis, posturas, procedimentos, comportamentos e medidas, que evidenciem verdadeiramente que o voluntariado é contributo inestimável na promoção do desenvolvimento pessoal, social e comunitário. E que também é fomento à participação direta, ao pensamento crítico e ao interesse ativo dos cidadãos motivados para ações de desenvolvimento, trabalhando na sensibilização para os benefícios decorrentes da cooperação, não apenas para os beneficiários diretos mas para todos os cidadãos, e promovendo sentimento comum de responsabilidade, de solidariedade e de oportunidade num mundo em mutação e cada vez mais interdependente e competitivo.
O valor social do voluntariado está no facto de ele ser “expressão do exercício livre de uma cidadania ativa e solidária” em contexto de cooperação, de democracia e de pluralidade, confirmando que aquele é “o conjunto de ações de interesse social e comunitário, realizadas de forma desinteressada por pessoas, no âmbito de projetos, programas e outras formas de intervenção ao serviço dos indivíduos, das famílias e da comunidade desenvolvidos sem fins lucrativos (…)” e que no campo da saúde se pode traduzir na realização de “tarefas de comunicação, de acolhimento, de companhia, de encaminhamento e de oferta de refeições ligeiras ou pequenos serviços aos utentes e seus familiares, em Equipamentos onde se prestam cuidados de saúde. Também na visita a pessoas que temporariamente ou em situação mais prolongada, se encontram nos Serviços dos referidos Equipamentos, cujo acesso se encontre autorizado, bem como a ajuda na realização de pequenas tarefas da vida diária, no acompanhamento a consultas e a serviços públicos, na realização de algumas compras e similares, promovendo assim a facilitação do acesso aos serviços destinados aos cidadãos, e contribuindo para o bem-estar geral e a inclusão social das pessoas beneficiárias da ajuda voluntária, nos domicílios dos utentes dos Equipamentos e fora daqueles, em situação de pós-alta ou não”.
Em Portugal, e ao mais alto nível, o voluntariado está assumido de tal forma que implica a existência de legislação própria que o enquadra juridicamente e que define os conceitos básicos bem como os princípios da “solidariedade, da participação, da cooperação, da complementaridade, da gratuitidade, da responsabilidade e da convergência” que lhes são subjacentes.
A prática do voluntariado é um modo possível para a vivência ativa da cidadania. No campo da saúde, aquela tem papel insubstituível na humanização das pessoas e dos Equipamentos, complementarmente à prestação de serviços e cuidados por estes. Só de forma organizada, estruturada e capacitada, se atingem os objetivos do voluntariado, com eficiência, eficácia e satisfação das partes envolvidas.
Que queremos certificar em ações de Formação inicial? Apenas a participação nas ações ou competências adquiridas? Será opção correta, ficar-se apenas pela participação? Provavelmente. Senão vejamos:
“No que à aprendizagem e ao desenvolvimento de competências diz respeito, as práticas de voluntariado oferecem potencialmente à pessoa várias formas de refletir e sistematizar as experiências. A experiência é tida como “(...) um elemento-chave no processo de aprendizagem, constituindo a base para a reflexão, problematização e formação de conceitos” (Pires, 2007).
Importa, portanto, promover a “produção de conhecimentos e aprendizagens significativas que possibilitem a cada um apropriar-se dos sentidos das experiências, compreendê-las teoricamente e orientá-las em direção ao futuro com uma perspetiva transformadora” (adaptado de Oscar Jara).
Quando estivermos aí, sim. Falemos de certificação de aprendizagens ou de competências adquiridas. O reconhecimento das aprendizagens é um valor de dignidade e de cidadania. Valoriza as pessoas, as organizações e o voluntariado, pela coesão social que promove, trazendo relevância social a outras aprendizagens, competências, percursos e modos de vida e de trabalho.
Porto, 19 de junho de 2016
João António Pereira, presidente da Direção da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde


[i] http://verdadeiroolhar.pt/2016/06/16/valongo-16-voluntarios-certificados/

domingo, 15 de maio de 2016

A Federação Nacional de Voluntariado em Saúde...

FNVS: - NOVE ANOS AO SERVIÇO
DO VOLUNTARIADO NO CAMPO DA SAÚDE

É já no próximo dia 21 que a Federação Nacional de Voluntariado em Saúde completa nove anos de vida ao serviço do voluntariado que em Portugal se realiza no campo da saúde. Voluntariado esse, organizado em Ligas de Amigos e em Associações de Voluntariado ou de Voluntários, em parceria com as Unidades de Saúde, sobretudo as que integram o Serviço Nacional de Saúde.
Tendo iniciado a atividade com onze Organizações fundadoras; e estabelecido como objetivo, ser a plataforma de integração, de representação e de defesa das Organizações de voluntariado e de voluntários, do Campo da Saúde, suas associadas; e apesar das dificuldades que tem encontrado pelo caminho, a Federação Nacional de Voluntariado, tem sido escolhida por muitas Organizações; e é hoje constituída por mais de meia centena de associadas efetivas, correspondendo a um universo superior a doze mil voluntários de ação direta e regulares, presentes em todos os distritos e em todas a ARS’, bem como nos Centros Hospitalares, nas Unidades Locais de Saúde, em ACES; e na comunidade.
O voluntariado no campo da saúde e as Organizações que o enquadram, são um setor de voluntariado com uma história tão rica quanto singular, com uma atuação tão específica quanto organizada, com uma postura tão exigente quanto disponível e solícita, que não quer nem procura honras nem mordomias, porque o que o move, o que move todos os stakolders é o serviço às pessoas que utilizam os serviços de saúde, um serviço sempre gratuito, sempre responsável, sempre realizado com a sabedoria de quem sabe e ama; e que de modo algum, alguém pode um dia pensar que terá o mesmo nível de satisfação pessoal e institucional, se vier a ser realizado por colaboradores remunerados.
As motivações que movem os voluntários são de longe diferentes das que movem os outros colaboradores das Unidades de Saúde. É assunto pacífico no âmbito da Gestão dos Recursos Humanos. Por isso, a ação de cada tipo de colaboradores, não se pode nunca confundir uma com a outra, nem a atuação dos voluntários pode ser conotada com alguma intenção de contribuir para a redução de postos de trabalho.
Um voluntariado (o da saúde) bem organizado, bem estruturado, com parcerias bem firmadas, com voluntários criteriosamente selecionados, formados e capacitados, em que as funções e as tarefas se encontram perfeitamente identificadas e caracterizadas, em que existe qualificada coordenação ou direção técnica… Um voluntariado assim, é garantia de que ele mesmo, as Organizações e os voluntários, são um efetivo contributo, não apenas para o bem-estar dos utentes, mas e mais ainda, para o aumento do nível da qualidade dos serviços de saúde, hoje entendida como uma necessidade intrínseca aos próprios serviços, uma vez que existem para servir os utentes.
Se por um lado, o objetivo principal (ou mais direto) da ação voluntária na saúde, é o serviço dirigido à pessoa, por outro lado, é demasiado evidente que colateralmente, que há impactos positivos nos serviços e nas Unidades de Saúde. Esta realidade não pode ser ignorada. Também por isso, as Organizações de Voluntariado na saúde devem ser mais queridas, mais apoiadas e mais consideradas, mesmo a níveis superiores da governação e da política que giza os destinos dos cidadãos e do país.
Considerando a história recente e o que tem sido dito sobre o voluntariado em geral e sobre o da saúde em particular, parece que afinal “treta” é um vocábulo que não tem, nem lugar nem uso entre nós, voluntários no campo da saúde. Mas também temos consciência que a nossa ação, apesar de implicar a partir de nós, (como afirmou o presidente da República) “compaixão, atenção, solidariedade, e capacidade para entender, para apoiar e para secundar (…) ela é exemplar na sociedade portuguesa.” Porque esse espírito (e essa cultura) “é fundamental em todos os domínios da sociedade portuguesa.” Uma cultura que passa por “abertura aos outros, a disponibilidade para os outros, o serviço dos outros, o ser capaz de ultrapassar os egoísmos”.

Depois de afirmar que “a disponibilidade para os outros rejuvenesce”, o chefe do Estado acrescentou ainda que “o trabalho voluntário, (…) vai para além da atividade profissional de muitos e, noutros casos, representa uma forma própria, autónoma, de realização pessoal que não tem a ver com atividades profissionais desenvolvidas no passado”. E todos sabemos e temos consciência do bem-estar, da felicidade e da paz interior que experimentamos quando chegam ao fim as nossas jornadas de ação voluntária.
Um grande bem-haja a todas as Organizações de voluntariado que atuam no campo da saúde, especialmente às associadas da Federação.
À Federação Nacional de Voluntariado em Saúde, votos de vida profícua e longa.
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Este texto, escrito a 15 de maio de 2016, é da exclusiva responsabilidade de João António Pereira, presidente em exercício, da Direção da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde.