quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Programa do:

9.º ENCONTRO NACIONAL
DO VOLUNTARIADO EM SAÚDE
14 de outubro - Viseu

PROGRAMA provisório

09,30 - Sessão Solene de Abertura
Presidida pelo senhor Ministro da Saúde
            - Homenagem
            - Liga de Amigos do Hospital de Tondela
 10,30 - Coffee break
 10,45 - Vertentes do Voluntariado
Moderador - Dr. Manuel Rodrigues - AVHST
              Voluntariado Espiritual- Dra. Isabel Martins –LAVCHTV
              Voluntariado na Comunidade - Enfª Silvia  Pacheco -UCC Boavista—Porto
              Voluntariado Social - Dra. Ana Vieira LAHT
11,30 - O Voluntariado faz bem à Saúde
Moderador: Dr. Pinto Ribeiro -Vice –Presidente da FNVS
            Dr. Fidalgo de Freitas - Médico Psiquiatra
 12,30  - Almoço Convívio
 14,30  - O Voluntariado e os Profissionais de Saúde
  Moderador: Enfº. Fernando Marques—Pte. Ass. Geral da  FNVS
        Enfº. António Batista - UCIM - CHTV
        Enfª Emilia Morgado / Manuela Bento - Movimento Vencer e Viver -Cirurgia CHTV /  Obstetrícia  CHTV
        Enfª Inês Ribeiro -. Ortopedia /Cirurgia CHMA– UST
15,30 -Experiências em Voluntariado em Saúde
Moderador—Professor Doutor Fernando Bexiga—LAVCHTV
         Liga dos Amigos do CH Cova da Beira
         Liga dos Amigos do Hospital de Viana do Castelo
          Liga dos Amigos do Hospital de Cascais
 16,30 - Coffee break
 16,45  - Conclusões

17,00 . Sessão de Encerramento 

Press-Release

9.º ENCONTRO NACIONAL
DO VOLUNTARIADO EM SAÚDE
14 de outubro - Viseu
REALIDADES E DESAFIOS
nos âmbitos, hospitalar, comunitário e espiritual

Quando celebra o seu 10.º aniversário, a Federação Nacional de Voluntariado em Saúde – FNVS, leva a efeito a 14 de outubro próximo, na cidade de Viseu, o 9.º Encontro Nacional do Voluntariado em Saúde, desta vez subordinado ao tema geral “Realidades e Desafios” e aos subtemas “âmbitos, hospitalar, comunitário e espiritual”.

O evento, acontecimento anual e muito importante, não só no contexto da FNVS, mas também no do voluntariado em geral em Portugal, destina-se a todos os públicos, sejam cidadãos em nome individual sejam Organizações de voluntariado e outras. Todos são bem-vindos, de modo particular, os dirigentes, os voluntários e outros colaboradores das Organizações (filiadas ou não na FNVS) que atuam no campo da saúde, seja em contexto de Unidade de Saúde ou Resposta Social, seja em contexto comunitário ou outro.

Queremos contribuir para o cumprimento dos fins do voluntariado, particularmente dos que se relacionam com o que se realiza no campo da saúde e similar, promovendo-os; assim como também com os que se relacionam com a atividade que as Organizações desenvolvem; e que é expressão de cidadania ativa e solidária. Temos como objetivos para o evento:

Reunir os voluntários que em Portugal, atuam no campo da saúde e similar, em prol da humanização, do bem-estar dos utentes e da qualidade de vida, independentemente de se encontrarem inseridos ou não em Organizações Promotoras de Voluntariado e Organizações Representativas de Voluntários.

Divulgar projetos, programas, Organizações e boas práticas de voluntariado no campo da saúde e similares, que se revelem sérios contributos de cidadania e de solidariedade, no sentido da melhoria da qualidade dos serviços e dos cuidados que se prestam aos utentes de saúde.

Contribuir para a capacitação geral dos agentes do voluntariado no campo da saúde e similar, nomeadamente os voluntários, possibilitando-se posturas e modus operandi com mais adequação e assertividade, no contexto das Unidades, dos Equipamentos e das Organizações onde colaboram; e elevar o pensamento crítico e o interesse ativo dos cidadãos sensibilizando-os para a importância do envolvimento no voluntariado.

Dar visibilidade ao voluntariado estruturado que em Portugal se realiza no campo da saúde e similar, sobretudo o que é protagonizado pelas Organizações de cidadãos, de modo particular, por aquelas que se encontram integradas na Federação Nacional de Voluntariado em Saúde, e por esta.

Evidenciar que a Federação Nacional de Voluntariado em Saúde e as Organizações suas associadas, são ontem, hoje e sempre, a forma e o caminho a fazer, no sentido da integração, da representação e da defesa do voluntariado no campo da saúde em Portugal, no contexto global do voluntariado.

toda a Comunicação Social, de todos os tipos, vertentes e âmbitos, solicitamos a melhor colaboração e divulgação. Aceitem ser nossos parceiros. Aceitem ajudar o setor de voluntariado que em Portugal se apresenta como um dos mais sentidos, mas também como um dos menos lembrados e apoiados.

Programa e mais informação em:
Porto, 1 de setembro de 2017, 
João António Pereira

Presidente da Direção da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Regime jurídico sobre o….

COMBATE À DISCRIMINAÇÃO
Há dias, a 23 deste mês de agosto, o Diário da República publicou a Lei n.º 93/2017 ([i]da Assembleia da República, com o objeto de estabelecer, “o regime jurídico da prevenção, da proibição e do combate a qualquer forma de discriminação em razão da origem racial ([ii]) e étnica ([iii]), cor, nacionalidade, ascendência e território de origem.” (artigo 1.º)

E logo no artigo 2.º diz que “a presente lei é aplicável a todas as pessoas singulares e coletivas, públicas e privadas, no que respeita: à proteção social, incluindo a segurança social e os cuidados de saúde; aos benefícios sociais; à educação; ao acesso a bens e serviços e seu fornecimento, colocados à disposição do público, incluindo a habitação; e à cultura.”

Mais à frente, no artigo 3.º define o conceito descriminação como sendo “qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência em razão dos fatores indicados no artigo 1.º, que tenha por objetivo ou efeito a anulação ou restrição do reconhecimento, gozo ou exercício, em condições de igualdade, de direitos, liberdades e garantias ou de direitos económicos sociais e culturais;” assim como os conceitos de descriminação direta, indireta, por associação e múltipla; afirmando que também o assédio constitui discriminação; e estará a acontecer “sempre que ocorra um comportamento (…) com o objetivo ou o efeito de violar a dignidade de determinada pessoa ou grupo de pessoas e de criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante, desestabilizador ou ofensivo.”

Agora, passando todo este assunto para o voluntariado, nomeadamente para o voluntariado no campo da saúde, questiono: que tem este assunto a ver com o setor? Será que quando a Lei diz que “é aplicável a todas as pessoas singulares e coletivas, públicas e privadas,”, também as Organizações Promotoras de Voluntariado no Campo da Saúde, também são parte desse universo? Sim? Não? Porquê?

Se não, não. Mas se sim… em que aspetos é que isso provavelmente poderá afetar o setor? Na seleção de candidatos a voluntários? Na postura com que abordamos cada utente dos serviços de saúde? No modo como ajudamos quem nos manifesta necessitar de ajuda? No modo como como olhamos e escutamos (ou não escutamos) quem se de nós aproxima? Como lidamos com a dignidade de toda e qualquer pessoa que servimos?

Se é comum dizermos que “todo o homem (entenda-se: pessoa) é meu irmão”; e com mais força se ele está só… então não é parte. É todo. E todo inclui todos. E todos “os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. (…)” e “ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica ou condição social.” ([iv])

A “consciência da fraternidade humana universal, felizmente, também progride no nosso mundo, pelo menos em linha de princípio.
Quem trabalha para levar as novas gerações a convencerem-se que todos os homens são nossos irmãos, constrói o edifício da paz desde os alicerces.

Quem introduz, na opinião pública, o sentimento de fraternidade humana sem barreiras, prepara dias melhores para o mundo.
Quem concede a tutela dos interesses políticos sem o impulso do ódio e da luta entre os homens, como necessidade dialética e orgânica da vida social, proporciona à convivência humana o progresso sempre ativo do bem comum.

Quem ajuda a descobrir, em cada homem, além dos caracteres somáticos, étnicos e raciais, a existência de um ser igual ao próprio, transforma a terra, de um epicentro de divisões, de antagonismos, de insídias e de vinganças, num campo de trabalho orgânico de colaboração civil.
Porque onde a fraternidade entre os homens é desconhecida na raiz, a paz também é destruída nas suas raízes.
No entanto, a paz é o espelho da verdadeira humanidade autêntica, moderna, vitoriosa sobre qualquer autolesionismo anacrónico.
A paz é a grande ideia que celebra o amor entre os homens, que se descobrem irmãos e se decidem a viver como tais.

Esta é a nossa mensagem para 1971. Repete, como uma voz nova que sai da consciência civil, a declaração dos Direitos do Homem: «Todos os homens nascem livres e iguais na dignidade e nos direitos; são dotados de razão e de consciência e devem comportar-se, uns para com os outros, como irmãos».
A doutrina da civilização chegou até aqui. Não voltemos para trás. Não percamos os tesouros desta conquista evidente.
Demos, sim, aplicação lógica e corajosa a esta fórmula, tendo em vista o progresso humano: «todos os homens são meus irmãos».

Esta é a paz, no seu ser e no seu devir. E, isto, é válido para todos!” (*)

Dá-me ideia que não tenho dúvida. O assunto implica-nos.

Porto, 28 de agosto de 2017, João António Pereira, presidente da Direção da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde. O conteúdo deste blogue é da inteira responsabilidade do autor; e em nada implica os membros do coletivo a que preside.




[ii] A raça é um conceito que obedece a diversos parâmetros para classificar diferentes populações de uma mesma espécie biológica de acordo com as suas características genéticas ou fenotípicas. In:  https://pt.wikipedia.org/wiki/Ra%C3%A7a
[iii] O termo etnia provém de um vocábulo grego que significa “povo”. Trata-se de uma comunidade humana que pode ser definida pela afinidade cultural, linguística ou racial. Os integrantes de uma etnia identificam-se por compartirem uma ascendência em comum e diversos laços históricos. Para além da história em comum, os membros mantêm atualmente práticas culturais e comportamentos sociais similares. In.: http://conceito.de/etnia
[iv] Lei Constitucional nº 1/2001 de 12-12-2001, CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA, PARTE I - Direitos e deveres fundamentais, TÍTULO I - Princípios gerais, Artigo 13.º - (Princípio da igualdade)
(*) https://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/messages/peace/documents/hf_p-vi_mes_19701114_iv-world-day-for-peace.html

Pelos caminhos do voluntariado...

9.º Encontro Nacional
do Voluntariado em Saúde
Finalidade:
Contribuir para o cumprimento dos fins do voluntariado, particularmente dos que se relacionam com o voluntariado que se realiza no campo da saúde e similar, promovendo-os; assim como também com os que se relacionam com a atividade que as Organizações desenvolvem; e que é expressão de cidadania ativa e solidária.

Objetivos gerais:
Reunir os voluntários que em Portugal, atuam no campo da saúde e similar, em prol da humanização, do bem-estar dos utentes e da qualidade de vida, independentemente de se encontrarem inseridos ou não em Organizações Promotoras de Voluntariado e Organizações Representativas de Voluntários.

Divulgar projetos, programas, Organizações e boas práticas de voluntariado no campo da saúde e similares, que se revelem sérios contributos de cidadania e de solidariedade, no sentido da melhoria da qualidade dos serviços e dos cuidados que se prestam aos utentes de saúde.

Contribuir para a capacitação geral dos agentes do voluntariado no campo da saúde e similar, nomeadamente os voluntários, possibilitando-se posturas e modus operandi com mais adequação e assertividade, no contexto das Unidades, dos Equipamentos e das Organizações onde colaboram; e elevar o pensamento crítico e o interesse ativo dos cidadãos sensibilizando-os para a importância do envolvimento no voluntariado.

Dar visibilidade ao voluntariado estruturado que em Portugal se realiza no campo da saúde e similar, sobretudo o que é protagonizado pelas Organizações de cidadãos, de modo particular, por aquelas que se encontram integradas na Federação Nacional de Voluntariado em Saúde, e por esta.


Evidenciar que a Federação Nacional de Voluntariado em Saúde e as Organizações suas associadas, são ontem, hoje e sempre, a forma e o caminho a fazer, no sentido da integração, da representação e da defesa do voluntariado no campo da saúde em Portugal, no contexto global do voluntariado.

O programa será publicado dentro de dias. Mais informação em www.voluntariadoemsaude.org 

Porto, 28 de agosto de 2017. João António Pereira, presidente da Direção da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde. O conteúdo deste blogue é da inteira responsabilidade do autor. Em nada implica os membros do órgão a que preside.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O Voluntariado...

… E A DÁDIVA DE SANGUE
O Voluntariado: - Em Portugal é reconhecido “o valor social do voluntariado como expressão do livre exercício de uma cidadania ativa e solidária” ([i]). Nessa base o próprio Estado chamou a si o papel de promotor e de garante da sua autonomia e pluralismo, bem como “da participação solidária dos cidadãos em ações de voluntariado”([ii]); e definiu as bases do seu enquadramento jurídico com a Lei 71/98.
O “voluntariado é o conjunto de ações de interesse social e comunitário realizadas de forma desinteressada por pessoas, no âmbito de projetos, programas e outras formas de intervenção ao serviço dos indivíduos, das famílias e da comunidade desenvolvidos sem fins lucrativos (…)” ([iii]).

E não é voluntariado “atuações que, embora desinteressadas, tenham um carácter isolado e esporádico ou sejam determinadas por razões familiares, de amizade e de boa vizinhança.” ([iv]). E não há voluntariado free-lancer, como algum partido político advogou algum dia.
Os princípios que enquadram o voluntariado em Portugal, são sete: “solidariedade, participação, cooperação, complementaridade, gratuidade, responsabilidade e convergência.” ([v])
Solidariedade – Todos e cada um de nós, somos responsáveis por nós e pelos outros. Eu por ti. Tu por mim. E nós por todos. Todos temos o dever de prover ao outro, aos outros. Como os três moscãoteiros: todos por um e um por todos.
Participação – As Organizações que representam o voluntariado e os voluntários têm que intervir, têm que falar, têm que ser escutadas no que a eles e ao voluntariado diz respeito. E há tanta necessidade do verdadeiro exercício desse papel de representante e de defesa, com mais acuidade ainda, dos voluntários. Estarão os voluntários a ser respeitados? Estará a lei a ser cumprida?
Cooperação – A cooperação entre as Organizações Promotoras e as Representativas, não tem que só ser possível. É urgente que aconteça. É um imperativo. Mas não em ambiente paternalista ou caridoso, no sentido que não se quer para o termo. Sim, em ambiente de igualdade e respeito pela autonomia de cada uma.
Complementaridade – Sim, a complementaridade. A tão apregoada complementaridade que não raras vezes não é praticada. Há. É verdade que há inúmeras situações de uso da mão de obra gratuita dos voluntários. E isto não acontece no setor lucrativo. Acontece na economia social e no setor público. Mesmo na saúde. Atenção aos dois tipos de voluntariado: o de administração e gestão; e o de ação direta!
Gratuidade – Os voluntários não recebem salários. Não são remunerados pela atividade que realizam. E claramente têm que ser muito fortes, porque também não podem receber donativos nem outras contrapartidas. E sabemos tão bem o assédio neste sentido, que é feito por exemplo a voluntários da saúde. E as horas da prestação do voluntariado, transformadas em valores que permitem abatimento em sede de IRS?
Responsabilidade – Se enquanto cidadãos, todos somos responsáveis por todos, enquanto no exercício do voluntariado, todos somos responsáveis pelo que realizamos, considerando não só a necessidade de que o que fazemos fazermos bem feito, como relativamente à satisfação do compromisso assumido, o que fazemos tem que ser resposta adequada às expectativas criadas aos beneficiários, pessoas e instituições.
Convergência – A ação dos voluntários e eles mesmos, têm que ser adequados aos objetivos e à cultura das Entidades Promotoras de Voluntariado e de Enquadramento dos Voluntários. Daí a importância da realização de um bom processo de recrutamento, seleção, formação, integração, acompanhamento e certificação. No entanto, no melhor pano pode cair a nódoa. Convergência, aqui, não é submissão cega a ordens hierárquicas. É acatamento de orientações e recomendações de quem compete dar, no sentido da prestação do melhor serviço e da satisfação de todos os stake-holders (intervenientes) – pessoas e instituições.

A dádiva de sangue: - Conforme o Estatuto do Dador de Sangue ([vi]) o Estado, se por um lado chama a si a responsabilidade em “assegurar a todos os cidadãos o acesso à utilização terapêutica do sangue, (…) bem como garantir os meios necessários à sua correta obtenção, preparação, conservação, fracionamento, distribuição e utilização.” ([vii]), por outro lado  diz que “é dever cívico de todo o cidadão saudável contribuir para a satisfação das necessidades de sangue da comunidade, nomeadamente através da dádiva.” ([viii]) e que é proibida a comercialização do sangue.
Ou seja, em Portugal, as responsabilidades relativas ao sangue humano, estão repartidas entre o Estado e os cidadãos; e todo o sangue é obtido a partir de dádiva dos cidadãos. O que quer dizer que em Portugal, o sangue humano não se compra nem se vende. Doa-se. Dá-se e recebe-se.
Depois, mais à frente no mesmo Estatuto, diz-se que a forma da dádiva é voluntária, que o dador declara a sua vontade em doar, e que “a dádiva de sangue é um ato cívico, voluntário, benévolo e não remunerado.” ([ix]).
Voluntariado e Dádiva de Sangue: - A atividade de voluntariado e a ação de doação de sangue humano, são ambas, ações de exercício da cidadania ativa, em prol do semelhante e em prol da comunidade, de todos os outros.
Para o voluntariado e para a doação de sangue, o Estado reconhece o papel insubstituível e crucial dos cidadãos, ambos como dadores, uns do seu próprio sangue e outros desempenhando diferentes tarefas de ajuda. Ambas as doações, realizam-se a partir da vontade de quem dá e voluntariamente.

O Estado, nas duas situações chama a si certas responsabilidades: a do enquadramento jurídico, a da promoção, a da regulação e a da garantia do exercício e do acesso.
Por ventura existirão diferenças na prática efetiva do Estado, relativamente aos dois setores, que me parecem menos devidas a ele mesmo e mais devidas à qualidade e à maior ou menor capacidade de representação, defesa e reivindicação da parte da sociedade civil, nomeadamente ao nível das Associações e das Federações.
Em cada uma das nossas associações e federações, há realidades diferentes, há forças que se jogam de modo diferente, há histórias diferentes, há caminhadas diferentes…. e até o modo de doar, de se doar, é diferente. Se uma doação está à flor da pele, a outra é invasiva. Se ambas partem de nós, uma sai clara e profundamente de nós.
Conclusão: - O dever de cidadania move-nos no sentido do voluntariado e da dádiva de sangue. Mas o dever da vida, de viver, de defender e de dar a vida, é muito mais forte; e confunde-se com o mais profundo do nosso ser – ser pessoa e ser humanidade. Está em nós e somos nós. Nós somos vida. Nós somos a vida. Vida que não se esconde debaixo do alqueire, que não é inerte nem passiva, mas vida que é ativa, que é dinâmica e em constante movimento. Vida que é pessoal – individual, mas que também é social e comunitária.
E só assim é que faz sentido. Se não fizer sentido para muitas pessoas, faz sentido, pelo menos para nós. Nós que atuamos e somos pró-vida. Nós que a portamos e a partilhamos com os outros, não importando a “ascendência, o sexo, a raça, a língua, o território de origem, a religião, as convicções políticas ou ideológicas, a instrução, a situação económica ou a condição social.” ([x]).

Todos, nós e todos, somos sujeitos da mesma dignidade social e somos iguais perante a Lei. E essa dignidade que não é só face à Lei e que é tanto mais elevada quanto mais nos sentimos para além de nós, que pode ser na transcendência.
É este sentido do outro. Este sentido de que não estamos sós, que não somos independentes, mas interdependentes, nem à face do planeta nem no cosmos ou nos céus, que nos faz, nos move, nos atira para a ajuda e para o serviço disponível, gratuito, desinteressado e qualificado, que prestamos.
Seja no voluntariado seja na dádiva do sangue. O voluntário e o dador de sangue, são sem sombra de dúvida, grandes obreiros da solidariedade verdadeira, autêntica e eficaz. Se quiserem, são obreiros da caridade – também ele sentimento altruísta de ajuda a alguém, sem busca de recompensa, que também pode definir-se como amor ao próximo, benevolência, bom coração, compaixão e misericórdia ([xi]).

Afinal, voluntários ou dadores, somos todos vida da mesma vida e sangue do mesmo sangue. Bebemos todos das mesmas fontes e deixamos transbordar os mesmos cálices. Ser voluntário é ser dador. Ser dador é ser voluntário. A essência é a mesma. Naturalmente que o que varia é a forma, o modo como…..
Somos voluntários. Somos dadores. Somos solidários.
Guimarães, 22 de julho de 2017. João António Pereira, presidente da Direção da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde. Nota: Declaro que o conteúdo deste blogue, é da inteira responsabilidade do autor; e em nada implica o coletivo a que preside.

[i] Artigo 5.º da Lei 71/98
[ii] Artigo 1.º da Lei 71/98
[iii] Número 1 do Artigo 2.º da Lei 71/98
[iv] Número 2 do Artigo 2.º do Lei 71/98
[v] Número 1 do Artigo 6.º da Lei 71/98
[vi] Lei 37/2012
[vii] Número 1 do Artigo 2.º da Lei 37/2012
[viii] Número 2 da Lei 37/2012
[ix] Número 1 do Artigo 4.º da Lei 37/2012
[x] Artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa, de 12 de dezembro de 2001.
[xi] Vide: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caridade

E depois havia...

A PESSOA SEM NOME
Na minha cidade natal nos Açores, havia uma pessoa sem-abrigo, quando ainda era eu criança e passava o tempo a correr na rua com o meu cão amarelo de nome "Jáki". Esse senhor era a única pessoa em situação de sem-abrigo, um gigante de barbas e vestes compridas até aos pés, que vagueava pelas ruas sozinho em silêncio.
Duarte Paiva, fundador da ACA
A maior marca de imagem desta pessoa era um bastão que o apoiava no andar, como se de um velho mago se tratasse. Ele sempre me fascinou durante a minha infância, mas ninguém me dizia nada sobre ele e eu nada sabia dele. Eu devia ter oito anos, ou talvez nove ou dez, na realidade não sei bem situar-me no tempo.
Naquela altura, em criança, não percebia bem estas coisas da pobreza e da riqueza. Sabia que os meus vizinhos da frente, do lado e do outro lado eram todos ricos, pois tinham umas casas grandes, ao contrário da minha. Sabia que as crianças do orfanato perto da minha casa eram pobres, pois não tinham família e vestiam roupa usada. E depois havia esse homem que nem casa nem nome tinha. Na minha pouca sabedoria de criança, decidi que o queria ajudar! Assim fui ter com a minha mãe e disse:
- "Mãe quero ajudar aquele senhor."
- "Filho, podes levar comida."
Comida. Isso mesmo! Levar comida, pois ele precisa de comer, deve ter fome! Enchi um saco de pão e levei. Corri ferozmente pela rua como se tivesse encontrado o sentido da vida. Quando lá cheguei, parei e fiquei a olhar para ele, como um anão olha para um gigante. O sentido da vida estava assim mais para o congelado.
- Que queres, disse ele num tom rouco e forte.
- Aah, trago comida...
- É pão?
- Sim...
- Então deixa aí (no mesmo tom rouco e com o olhar desviado).
Deixei o saco de pão e corri para casa como se tivesse ganho um bilhete de regresso à realidade. Qual sentido da vida? Perdi-o logo! O pior é que não tinha percebido nada daquilo e no caminho vim a pensar que aquele homem não queria pão. Essa era uma imagem tão forte na minha cabeça que rapidamente se transformou numa pergunta: "Mas o que quereria ele?". No fim de tudo isto e mais do que tudo, mais do que ajudá-lo, mais do que sentir que fui útil, mais do que qualquer grandeza, senti que o humilhei, dando-lhe aquele pão seco.
Não sei quando vi essa pessoa pela última vez. Talvez dias depois, talvez nunca mais, mas o sentimento acompanhou-me ao longo da minha vida até ao dia em que escrevo este texto. É muito fácil humilharmos as pessoas mesmo com a melhor vitalidade solidária. Mas não há nenhuma dignidade na pobreza nem numa caridade desempoderadora (a chamada "caridadezinha"), ainda muito presente em nós e nas nossas organizações. Os pobres são como que adotados nesta caridade que lhes retira, muitas vezes, qualquer réstia de identidade. Por vezes nem o nome sabemos e se o sabemos pronunciamos com um tom condescendente e infantil. E quando alguém almeja mais do que uma sopa e um canto para dormir, é pobre e mal-agradecido, dizemos com facilidade.

Esta expressão ainda ecoa bem na nossa consciência coletiva enquanto sociedade e quando confrontados com pessoas que, apesar da sua situação de pobreza, ainda querem ser alguém, querem ter escolhas e mostram que tem desejos, como eu e o leitor. É bom ter desejos e sonhos, mostrar que os temos e lutar por eles. É bem mais importante isso do que o pão seco que eu pensava dar àquele homem todos os dias. É isso que nos tira da pobreza.

Então, e por fim, respondendo à questão "o que quereria ele?", encontrei a resposta perguntando a mim mesmo "o que quero eu para mim".

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

E se eu fosse voluntário?...

QUEM GANHARIA COM ISSO?
No meu tempo!... Sim, é isso que não raras vezes ouvimos, mesmo a respeito do voluntariado. Fosse ele no associativismo cultural e desportivo, fosse no socorro e em catástrofes, fosse na saúde, fosse em que área fosse; não incluindo ainda as novas áreas de atividade voluntária, como o ambiente, a missionação, etc..

No meu tempo!... Ainda no meu tempo! Esclareça-se: no tempo que já passou. Não o de hoje. Até parece que não sou vivente hoje. Mas é assim e é assim que a maioria de nós se expressa quando não é capaz ou não quer entender, ou não quer enfrentar o que se chama: MUDANÇA.

Mudança! Muita mudança. Em mim. Em si. Na minha e na sua aldeia. No meu e no seu bairro. Na minha e na sua cidade. Enfim… E repito: mesmo a respeito do voluntariado. Voluntariado que em verdade, não é o que era. Não o é, pelas posturas pessoas e sociais a respeito…. Não o é, pelo enquadramento legislativo e pela assunção (ou recusa de…) de responsabilidades… Não o é, e muito mais importante ainda…. Quando se trata de colocar em equação, o trinómio: SERVIR ou SERVIR-ME ou SERVIR-SE?

De modo muito lindo (quase que me atreveria dizer: poético) a legislação que desde 1998 enquadra o voluntariado em Portugal (e honrado seja quem a preparou), para além de claramente se perceber que bebeu das muitas e muito boas fontes da prática e do conhecimento sobre aquele… ele, o enquadramento jurídico do voluntariado em Portugal, abre a possibilidade da promoção do voluntariado e o enquadramento de voluntários a inúmeras pessoas jurídicas (embora com nuances), incluindo as pessoas coletivas de direito público, do poder central, regional e local. Leia-se: Estado.

Porquê o Estado? O voluntariado e a sua prática são de iniciativa pessoal, comunitária. Emana de cada cidadão para ele sensibilizado e motivado. Tem iniciativa na sociedade civil organizada. Quer responder a realidades que requerem respostas rápidas, que podem não ser duradouras, mas têm que ser rápidas. Têm que ser prontas. Que são as primeiras e podem ser cruciais e insubstituíveis, para o sucesso das situações. Mesmo no campo da saúde, hospitalar, comunitária ou outra.

Considerando o voluntariado como o conjunto de ações de ajuda de pessoas a pessoas; e considerando como eu considero, que é vida e alma da sociedade civil; e que só aí faz sentido… que sentido faz a prática do voluntariado em contexto estatal? Exemplos: na cultura, na educação e na proteção civil (não bombeiros voluntários).

Concretizando na área estatal da cultura (monumentos, museus e palácios), vejamos: a “DGPC pretende incentivar a participação da sociedade civil no desenvolvimento das atividades e serviços (…)  proporcionando aos voluntários os benefícios de formação cultural e de desenvolvimento de competências, ao mesmo tempo que a possibilidade de integração em projetos institucionais de referência, sem prejuízo de experiências anteriores e em curso que reforçam a participação de voluntários nos espaços patrimoniais.” ([i])

E mais adiante “ser voluntário (…) da DGPC constitui uma oportunidade de excelência para participar em ações de salvaguarda do património (…) na aquisição de competências profissionais especializadas, na construção de oportunidades privilegiadas de aprendizagem, no desenvolvimento de competências comunicacionais, no contato direto com os agentes culturais e na participação em eventos culturais e sociais, dando a cada voluntário a possibilidade de conhecer por dentro o mundo da cultura e de se integrar numa comunidade ativa, criativa e dinâmica. Espera-se que o Voluntário dê a sua opinião sempre que achar necessário. As suas sugestões são indispensáveis para o sucesso deste projeto. A sua participação irá, por certo, fazer com que os espaços (…) da DGPC sejam cada vez mais locais aprazíveis em que os visitantes podem encontrar um acolhimento personalizado e eficaz.” ([ii]). 

Mais poderia continuar a citar a partir do documento que referencio em rodapé. Quanto a isso, por aqui me fico. Considerando os objetivos do voluntariado (ver a Lei 71/98)… que dizer? Somos portugueses e nem todos usamos pasta dentífrica Couto (antes medicinal). Não fiquemos “no meu tempo!” O meu, o seu, o nosso tempo é o tempo de hoje. É hoje que devemos estar de atalaia. Tratemos as coisas como devem ser tratadas. Chamemos os assuntos pelos seus nomes. Hoje, a prática do voluntariado serve a quem?
Porto, 23 de agosto de 2017, João António Pereira, presidente da Direção da Federação Nacional do Voluntariado em Saúde. Nota: o conteúdo deste blogue é da inteira responsabilidade do seu autor. Em nada implica o coletivo a que preside.

[i] www.patrimoniocultural.gov.pt / Carta do Voluntário de Monumentos, Museus, Palácios da DGPC.
[ii] Idem.