Alunos fazem
voluntariado nas bibliotecas escolares e dão explicações a colegas
Nas
bibliotecas escolares há alunos que fazem voluntariado, ajudam os colegas que
têm mais dificuldades nas disciplinas e até conseguem impor silêncio mesmo
quando estão perante estudantes mais velhos.
Sentadas atrás da secretária à entrada da
biblioteca da Escola Básica Galopim de Carvalho, Raquel e Yara, alunas do 6.º
ano, vão registando as requisições de livros e computadores dos colegas e
assegurando que as regras da sala são cumpridas.
No ano
passado, candidataram-se ao cargo de monitoras, fizeram um curso de formação,
estagiaram e foram selecionadas. Agora fazem parte do grupo de 90 alunos
monitores (35 são este ano estagiários) que vão garantindo o normal
funcionamento do espaço.
“Faço
requisições, dou chaves de cacifos para os pertences e faço rondas para saber
se está toda a gente a portar-se bem”, resumiu Raquel, que garante querer
continuar a fazer estas tarefas.
Quando há
distúrbios, os voluntários avançam: “Alguns entram e eu já sei que se vão
portar ligeiramente mais mal. Quando se portam mal eu mando calar e, se não me
obedecerem, chamo a Dona Teresa ou a professora Fátima”, contou Yara,
desdramatizando os casos pontuais de mau comportamento.
Numa
escola com 727 alunos, a biblioteca regista mais de três mil entradas por mês,
segundo a professora bibliotecária, Fátima Rocha, que mostra orgulhosa a
tabuleta de “Lotação Esgotada” que, por vezes, têm de pôr à entrada.
Uma das
razões para a elevada afluência prende-se com as mudanças registadas nos
últimos anos: as gigantescas estantes de livros trancadas à chave a que só as
bibliotecárias tinham acesso deram lugar a móveis de prateleiras baixinhas,
acessíveis a todos; agora há também revistas, computadores e tablets, além dos
tradicionais livros, e o silêncio deu lugar ao burburinho dos alunos que podem
trocar ideias, conversar, ouvir música ou ver um filme.
Esta
transformação é o resultado do trabalho desenvolvido pela Rede de Bibliotecas
Escolares (RBE) e pelas obras do programa "Parque Escolar". Agora,
muitos destes espaços enchem-se de alunos, como o Francisco que gosta de ler
revistas e jogar: "No recreio brinco e nos tempos livres, quando acabam as
aulas, venho para aqui", contou à Lusa.
“Acredito
que ainda há muita gente que tem a ideia daquele espaço antigo, mas os tempos
mudaram e as bibliotecas também”, lembrou Isabel Mendinhos, coordenadora
interconcelhia das Bibliotecas Escolares, sublinhando que “já não reina um
silêncio absoluto”, porque agora é “um local de aprendizagem onde os alunos
colaboram entre si e com os professores”.
Uma das
tarefas de alguns voluntários é precisamente ajudar os alunos com mais
dificuldades nas aulas, como é o caso de João Natário, do 8.º ano, que aderiu a
esse programa da RBE que foi este ano aplicado na sua escola.
“Normalmente
costumo ajudar os alunos com mais dificuldades nos TPC e a fazer pesquisas nos
computadores”, contou à Lusa o aluno, garantindo que alguns colegas já subiram
as notas. “Os outros… já se sabe como é que é”, desabafou.
Isabel
Mendinhos falou no sucesso do projeto de explicações interpares que começou no
agrupamento de escolas de Mem Martins, onde já se registaram “melhorias nas
aprendizagens e nos resultados escolares”.
A escola
do Cacém é apenas uma das muitas onde os alunos são monitores, graças ao
projeto da RBE, um organismo criado há 19 anos com o objetivo de instalar e
desenvolver as bibliotecas nos estabelecimentos de ensino.
Com um
orçamento anual de cerca de 400 mil euros, a coordenadora Nacional da RBE,
Manuela Pargana da Silva, diz que existem atualmente 2420 bibliotecas ligadas
em rede, o que permite trocar experiências e replicar as melhores práticas,
como a dos voluntários e das explicações interpares.
João
Natário passa as tardes entre os livros e computadores, na biblioteca, e
garante estar sempre disponível para os colegas. “Se alguém precisar, pode vir
cá pedir ajuda”.
Há crianças a lerem para colegas como gente grande
Bruna
descobriu o prazer da leitura aos 8 anos, quando começou a contar histórias aos
meninos do jardim-de-infância pela mão da professora que decidiu que os seus
alunos iriam ler para os mais novos, aderindo a um programa da Rede de
Bibliotecas Escolares.
Todas as
quartas-feiras, à hora do almoço, os mais pequenos dirigem-se à biblioteca da
Escola Básica Gomes Ferreira de Andrade, em Oeiras, para ouvir mais uma
história contada pelos “meninos crescidos”.
Os
“meninos crescidos” são alunos do 3.º B e têm apenas 8 anos, mas encaram esta
missão como gente grande: são eles que escolhem os livros, que distribuem as
personagens entre si e que ensaiam a leitura, garante a professora Carla
Fernandes.
O que se
passa nesta escola de Oeiras repete-se em muitas outras, onde alunos do 3.º e
4.º anos de escolaridade leem em voz alta para os mais novos, que podem ser
meninos do jardim-de-infância ou alunos do 1.º e 2.º anos, graças a um projeto
da biblioteca escolar destinado a conquistar os mais pequeninos para a leitura,
desenvolver a expressão oral e partilhar palavras e histórias.
É entre
os livros que têm em casa, na sala de aula ou na biblioteca escolar que os mais
velhos decidem o que querem dar a conhecer aos colegas. “Depois, no recreio ou
na sala preparamos as personagens”, contou à Lusa Afonso Lourenço, aluno da
sala de Carla Fernandes.
A professora
garante que muitos alunos levam os livros para o intervalo, onde “livremente
treinam a leitura” para depois terem sucesso na apresentação aos mais pequenos.
“Eu gosto
de ouvir os meninos crescidos, porque eles contam bem e nunca têm vergonha”, diz
Lara, que esteve atenta durante as três leituras feitas esta quarta-feira na
biblioteca da escola.
Com 6
anos, Lara ainda não domina a leitura, mas diz que o pai já a está a ensinar e
que consegue “ler” um livro inteiro: “Sei `Os cães não dançam ballet´ mas só
com o livro, sem o livro não consigo”, explica.
Matilde
Coimbra, aluna do 3.º B, selecionou uma das histórias da semana: “Eu escolhi o
Coelhinho Branco porque no 1.º ano já tínhamos lido e gostei.”
A
professora, que decidiu avançar com este projeto no âmbito da Rede de
Bibliotecas Escolares, garante que os seus alunos “estão praticamente autónomos
a fazer este tipo de atividades” e que agora “dão menos erros, fazem melhor os
diálogos e são mais imaginativos”.
Porque os
livros têm um número limite de personagens, os alunos organizam-se em pequenos
grupos e registam-se para conseguir ir ler. “Já tenho inscrições quase até ao
fim do ano letivo”, garantiu orgulhosa Carla Fernandes.
Este é um
dos muitos projetos da Rede de Bibliotecas Escolares, que pretende estimular o
gosto pelos livros e parece estar a resultar. “Antes eu não gostava muito de
ler, era um bocado chato, mas agora já comecei a gostar”, desabafou Bruna
Roque, que esta semana fez parte do grupo que leu o Coelhinho Branco.
A
coordenadora nacional da Rede de Bibliotecas Escolares, Manuela Pargana Silva,
diz que é nestas idades que “os alunos começam a criar hábitos de procura de
biblioteca que vão continuando nos outros níveis etários” e sabe que, por volta
do 7.º ano, muitos alunos abandonam essa rotina “porque aparecem outros
interesses”.
“Mas
depois há um retorno”, garante Manuela Pargana Silva, que não tem dúvidas que
esse regresso se consegue cultivando o gosto pela leitura desde cedo.
http://www.educare.pt/noticias/noticia/ver/?id=36504&langid=1